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Pra não dizer que não falei de flores

Uma reflexão sobre as transformações de Flores da Cunha ao longo das décadas, a chegada de novos moradores e a construção coletiva do futuro da cidade
(Foto: Divulgação)

As flores que ilustram esta página foram plantadas e fotografadas no jardim da família. São flores que cultivo, observo e admiro. Mas, desta vez, quero falar de outra Flores: Flores da Cunha.

Por um longo tempo, praticamente desde 1966, acompanho a trajetória desta terra. Nasci na “Valada”, no Travessão Pinhal, em Otávio Rocha. Fui aluno do festejado Grupo Escolar, construído em 1936, e meus estudos me levaram por Antônio Prado, Veranópolis, Caxias do Sul e, mais tarde, Guarulhos, em São Paulo e Porto Alegre.

Na década de 1960, entre colegas de diferentes municípios da região, havia, digamos assim, certo preconceito em relação a Flores da Cunha. Era vista como uma cidade carente: sem ginásio, sem rádio, sem indústrias, com poucas estradas pavimentadas. E não faltavam as chacotas e gozações com a chamada “Terra do Galo”. Havia também as disputas políticas, como a questão da retirada da Ponte de Ferro, que se pretendia instalar no Passo do Zeferino; as dificuldades para conquistar a emancipação e, posteriormente, a frustração com a BR que não veio.

Mas o tempo passa, e as cidades também mudam.

Vamos dar um salto para os anos 1980. Flores da Cunha começou a experimentar uma nova realidade: instalação de indústrias, crescimento do setor vinícola, novos hotéis, chegada do asfalto, a construção da Ponte do Passo do Zeferino, o asfalto e, sobretudo, a chegada de centenas de migrantes vindos das mais diversas regiões.

A cidade, que antes via muitos de seus filhos partirem em busca de estudo e trabalho, passou a receber novos moradores. Flores da Cunha deixou de ser apenas um lugar de passagem e tornou-se centro de oportunidades.

A pequena cidade, de poucas ruas calçadas, foi se transformando. Vieram novos loteamentos, escolas, postos de saúde, empresas e instituições. Vieram também pessoas com diferentes histórias, costumes e conhecimentos, que passaram a construir aqui suas próprias vidas.

É para esses novos florenses que também escrevo. Eles chegaram e foram se integrando à comunidade formada, em grande parte, pelos descendentes das primeiras gerações de imigrantes italianos. Aos poucos, foram conhecendo e incorporando costumes locais: a alimentação, a religiosidade, as festas, as tradições, o movimento tradicionalista e a vida comunitária das capelas.
E também trouxeram muito de si.

Com seus braços, seu trabalho, sua inteligência e seus sonhos, ajudaram a elevar ainda mais a pujança de nossa Flores. A população cresceu, ultrapassando os 30 mil habitantes. E, diante de tantas mudanças, alguns florenses da “gema” costumam dizer, brincando: “Não conhecemos mais ninguém!”

É verdade que muita coisa mudou. Mas os que chegaram também se adaptaram aos nossos costumes. Seus filhos estudam em nossas escolas, convivem com os filhos das famílias tradicionais e aprendem, no dia a dia, o jeito de ser do nosso povo.

Um povo que gosta de trabalhar, poupar, gastar com consciência, melhorar sua casa e participar da comunidade. Gente que frequenta as festas, ajuda nas capelas e coloca suas mãos à disposição quando é preciso preparar, servir e colaborar.

Assim, Flores da Cunha foi crescendo sem deixar de ser aquilo que sempre foi: uma comunidade construída pelo trabalho.

Hoje, olhando para trás, percebo quanto mudou aquela Flores que conheci na juventude. A cidade que tantas vezes foi motivo de brincadeiras tornou-se uma referência regional, acolhendo gente de muitos lugares e oferecendo oportunidades que, no passado, seus próprios filhos precisavam buscar longe.

E talvez seja esta a maior transformação: antes, muitos florenses saíam em busca de um lugar para viver; hoje, Flores da Cunha recebe pessoas que aqui encontram o seu lugar.

Finalmente, percebo uma cidade progressiva, que olha para frente, sem esquecer suas raízes.

E, quando chega o dia de votar, que seja também dia de consciência. O importante é participar, escolher e ajudar a construir o futuro.
Porque, depois de tantas décadas acompanhando Flores, aprendi que uma cidade também é como um jardim: precisa de raízes profundas, mas não pode deixar de produzir novas flores.

Observação: “Título inspirado na Canção de Geraldo Vandré”.

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