Em uma noite cercada de expectativa, como a dos Melhores Vinhos de Flores da Cunha, um dos momentos mais aguardados é a entrega do troféu Amigo do Vinho. Concedida anualmente a uma personalidade com trajetória ligada à vitivinicultura do município, a distinção reconheceu, em 2026, José Virgílio Venturini, 66 anos, o Zeka.
A surpresa foi completa. Sentado à mesa com familiares, Zeka acompanhava o discurso do prefeito César Ulian sem imaginar que as referências feitas pelo chefe do Executivo eram sobre ele. No início, nem sequer desconfiou. A ficha começou a cair quando surgiram lembranças dos nove irmãos e da passagem de seu pai pela Cooperativa Santo Antônio.

(Foto: Luizinho Bebber, divulgação)
— Me deu vontade de mandar embora todo mundo daqui, porque todo mundo sabia e eu não fazia a mínima ideia. Eu jamais imaginaria que, entre todos os presentes no salão naquela noite, eu seria o escolhido para receber o prêmio. Tanto que, ao chegar lá na frente, me faltaram palavras — conta.
A homenagem, segundo ele, ganhou ainda mais significado justamente por ter vindo de pessoas com quem convive diariamente e que conhecem sua trajetória.
— É sempre muito gratificante. Isso mostra que, ter o reconhecimento do povo que tu convive, é sinal de que alguma coisa de positivo foi feita. Eu me considero um cara que nunca fez nada além do normal, mas ter sido escolhido, é um motivo de muito orgulho — afirma.
A relação de Zeka com a uva começou muito antes de virar profissão. Criado na Linha 100, ele passou a infância e a juventude trabalhando na colônia da família.
— Aos 21 anos, decidi cursar Enologia em Bento Gonçalves. Iniciei os estudos em 1982 e me formei no dia 13 de abril de 1985. Logo em seguida minha mãe conseguiu um estágio para mim, passei a trabalhar aqui (local que mais tarde se tornaria a Casa Venturini). Se tu soubesse como era isso aqui quando eu cheguei, tu ia chorar um mês sem parar — recorda o viticultor que contabiliza mais de 40 anos de dedicação ao setor vitivinícola em Flores da Cunha.
Quinto de uma família de dez irmãos, Venturini cresceu em um ambiente em que a uva e o vinho faziam parte do cotidiano. A influência familiar, segundo ele, foi determinante para a permanência no setor.
— Eu acho que isso aí vem de família e está no sangue, sempre esteve.
O verdadeiro significado de ser “Amigo do Vinho”
Ao receber a homenagem, Zeka também precisou explicar o que representa, para ele, ser chamado de Amigo do Vinho. A resposta passa pela responsabilidade de manter viva a cultura vitivinícola.
— Amigo do vinho é sempre zelar para produzir bons produtos, divulgar a cultura do vinho, o consumo do vinho, principalmente entre as camadas da população mais jovens, que não têm tanto conhecimento. E trabalhar no vinho, que é o que eu sempre fiz desde que eu nasci até hoje — define.
A atuação de Venturini não ficou restrita à vinícola. Ao longo dos anos, ele também passou a participar das entidades representativas do setor. Presidiu a Associação dos Altos Montes entre 2016 e 2017 e, desde 2024, está à frente do Sindivinhos.
A experiência acumulada fez com que o enólogo acompanhasse de perto mudanças na produção, no consumo e também nas dificuldades enfrentadas pelas empresas brasileiras.
Para ele, o setor exige persistência. As dificuldades, diz, fazem parte da rotina de quem escolhe trabalhar com vinho.
— Tem que ser muito persistente, porque os desafios são muitos. Tem que matar um leão por dia. Uma hora é o governo que atrapalha, outra hora é o tributo que muda, outra hora é o vinho importado que pagava X imposto, agora não paga mais nada. E assim vai indo.
Zeka não se define como um líder de grandes invenções, mas como alguém que prefere fazer bem aquilo que conhece.
— Sou o líder que faz o arroz com feijão, não inventa muita coisa e sempre com muita simplicidade e muita humildade tenta fazer as coisas do jeito que a gente sabe.
Esse modo de trabalhar também tem relação com os ensinamentos recebidos dentro de casa. Entre as principais lições deixadas pela família, está a ideia de que o trabalho precisa ser feito com dedicação, mesmo quando o resultado não sai exatamente como planejado.
— Tem que fazer as coisas com muito amor, muito carinho e fazer da melhor maneira possível. Embora muitas vezes não saia como o cara desejaria, mas tentar dar o máximo para que saia da melhor forma possível.

