A sucessão rural é um dilema contemporâneo. A vida no campo é dura, e os altos custos de produção e incertezas climáticas podem desestimular a permanência nas propriedades. Ao longo dos anos, muitos jovens deixaram a colônia em busca de educação e novas oportunidades. Contudo, aos poucos, aparece um novo movimento.
Com o crescimento do uso da tecnologia na agricultura, que já inclui drones que permitem fazer a pulverização da janela de casa, e mais opções de qualificação profissional. Cada vez mais jovens optam por permanecer no campo e desenvolver o legado dos pais e avós.
É o caso de Cristhian João Calgaro e Aldorik Bolzoni, de 20 e 19 anos, respectivamente. Além de serem moradores de Otávio Rocha, ambos possuem outra característica em comum: estudaram na Escola Família Agrícola da Serra Gaúcha (Efaserra).
O estudo especializado no campo ajudou os dois jovens a enxergarem na agricultura não apenas uma profissão, mas um projeto de vida.
Filho de Arlindo Sétimo Calgaro e Maria de Fátima Silva Calgaro, já falecida, Cristhian afirma que a permanência na propriedade sempre esteve em seus planos. Sua família foi pioneira na produção de morangos em Flores da Cunha, trabalho iniciado em 1996. Além de ter uma produção e negócio já estruturados pelo pai, o jovem viu na Efaserra a oportunidade de se preparar para dar continuidade ao legado familar.

— Eu podia fazer o ensino médio básico ou me arriscar. Não foi fácil, mas sabia que iria agregar para a minha vida — conta o jovem.
No caso de Aldorik, filho dos viticultores Ivanio Bolzoni e Silvana Bolzoni, a decisão amadureceu aos poucos. Acostumado desde pequeno com a rotina da propriedade, percebeu, com o tempo, que permanecer na agricultura era mais do que uma questão de costume.
— Acho que é porque eu realmente gosto. A tranquilidade e a liberdade que a vida no interior proporciona são difíceis de encontrar em outro lugar — considera.
“É uma vida mais recompensadora”
Os dois jovens agricultores de Otávio Rocha concluíram os estudos na Efaserra em novembro do ano passado. Ambos concordam que a experiência na escola foi além do ensino técnico.
Para Cristhian João Calgaro, o principal aprendizado foi conhecer outras realidades e desenvolver responsabilidade ao conciliar os estudos com a rotina rural. Já Aldorik Bolzani destaca a convivência com estudantes de diferentes municípios e culturas agrícolas.
— Aqui na região é mais focado em uva e vinho, e na Efaserra tem contato com mais pessoas do campo, de outras culturas, o que agrega muito ao profissional — explica.
A rotina intensa é uma característica comum entre os dois jovens. Na propriedade da família de Cristhian, o cultivo de morangos ocorre durante todo o ano. No inverno, o trabalho se concentra na troca de mudas, reformas e preparação da próxima safra.

Cristhian tem orgulho de ser colono e produzir morangos (Foto: Nadine Dilkin)
Na propriedade da família de Aldorik, a viticultura também exige dedicação diária.
— No mínimo umas 10 horas por dia. É uma carga maior, mas muito mais recompensadora — resume.
Os dois projetam o futuro no campo. Cristhian pretende diversificar a produção com a criação de gado em uma área hoje sem uso na propriedade.
— Gosto de conviver com os animais — aponta.
Já Aldorik quer assumir integralmente a propriedade da família, ampliar a produção e investir na pulverização com drones para reduzir a necessidade de mão de obra.
Mais do que um meio de sustento, ambos veem na agricultura um propósito de vida.
— Ser colono é conseguir levar alimento para outras pessoas. Às vezes as pessoas compram o morango no mercado e não sabem de onde vêm os alimentos. Eu tenho orgulho de ser colono. Não tenho vergonha nenhuma. Sou feliz e vejo futuro aqui — afirma Cristhian.
Aos jovens que consideram construir uma carreira no campo, eles deixam uma mensagem de incentivo. Para Cristhian, a dedicação aos estudos foi fundamental para enxergar novas oportunidades dentro da propriedade. Já Aldorik acredita que o início pode trazer desafios e exigir adaptação, mas garante que o esforço vale a pena.
— É uma vida muito mais recompensadora e que oferece liberdade e independência para quem realmente gosta do que faz — conclui.

