Home Destaque Palavra Viva: Sozinhos somos uma ilha

Palavra Viva: Sozinhos somos uma ilha

Confira a crônica de Gustavo Tamagno Martins publicada na edição 1.866 do jornal O Florense

Ao mesmo tempo em que somos apenas um grão de areia na vastidão do universo, também somos, cada um de nós, peças indispensáveis no funcionamento da grande engrenagem coletiva. Há algo fascinante nessa contradição: sozinhos até conseguimos construir alguma coisa, mas no encontro e na parceria com os outros é que ampliamos, de fato, o nosso alcance e podemos muito mais.

Dia desses, precisei fazer um exame de sangue e saí de lá impressionado com tamanho amor e educação da enfermeira que me atendeu. Deu para perceber nitidamente que a mulher, que não aparentava ter mais do que 25 anos, ama muito o que faz. E mais do que isso: ama as pessoas e entende que sem elas, o seu trabalho é praticamente inaplicável.

O relógio recém marcava sete horas da manhã e ela já exibia um sorriso invejável no rosto e gentilmente me agradecia por cada pedido:

— Coloque seu braço aqui, por favor. Obrigada!
— Pode fechar a mão? Obrigada!
— Segura esse algodão enquanto pego o curativo? Obrigada!
— Deixa o braço dobrado um pouquinho. Obrigada!

Confesso que fiquei sem jeito. Não estamos acostumados com esse tipo de delicadeza cotidiana. Pelo contrário: saímos de casa, muitas vezes, já “vacinados” e preparados para encontrar tantas pessoas estúpidas, egoístas e sem educação por aí. Talvez seja por isso que, quando encontramos alguém assim, nos surpreendemos tanto.

Isso me fez pensar que cada um de nós é como uma ilha, às vezes, inclusive, um território ainda pouco explorado por nós mesmos. Mas não se trata de sermos incompletos, nem de dependermos totalmente uns dos outros. Somos inteiros. E é justamente por isso que podemos nos transformar a partir dos encontros. Crescemos nas trocas.

Para nos conectarmos melhor com outras “ilhas”, porém, é preciso antes conhecer a nossa própria. José Saramago dava a dica: “é preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós”.

E sair de si não significa abandonar a própria essência. Pelo contrário, é uma maneira de nos analisarmos em outros ângulos e entendermos, de fato, aquilo que faz nós sermos o que somos e como somos. Uma forma de nos observarmos sob novas perspectivas e de nos reconhecermos no espelho do outro.

No fim das contas, sozinhos somos uma ilha. Mas juntos, formamos um vasto e belo arquipélago. Como diz um ditado por aí: “sozinhos vamos mais rápido, juntos vamos mais longe”. Talvez o mundo peça menos pressa e mais cuidado. Menos dureza e mais gentileza. Porque, às vezes, um simples “obrigado”, dito com verdade, já é capaz de nos lembrar que ainda vale a pena ser humano.

Compartilhe:

Outras notícias:

plugins premium WordPress
Tem certeza de que deseja desbloquear esta publicação?
Desbloquear esquerda : 0
Tem certeza de que deseja cancelar a assinatura?

Entrar na sua conta