Home Destaque Apesar das perdas para o tornado e chuva de granizo, município deve ter safra da uva 10% maior que a do ano passado

Apesar das perdas para o tornado e chuva de granizo, município deve ter safra da uva 10% maior que a do ano passado

Inverno com mais horas de frio abaixo de 7,2 graus garantiu uma boa brotação e a eliminação de fungos patógenos das videiras
Vanice Baroni teve 70% da produção comprometida (Foto: Karine Bergozza)

O aroma de uva no ar anuncia: é tempo de vindima em Flores da Cunha. Apesar dos desafios enfrentados nos últimos meses, com um tornado e uma forte chuva de granizo que atingiram o município, os números gerais da safra 2025/2026 devem ser positivos.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares (STR) de Flores da Cunha e Nova Pádua, Ricardo Pagno, está acompanhando os agricultores que iniciaram a colheita e estima que esta safra seja 10% superior em comparação a do ano passado.

– Com esses dias mais de sol melhorou, ela (uva) está com uma graduação considerada boa. Na safra passada, Flores da Cunha com seus 6,6 mil hectares de parreiras colheu em torno de 111 milhões de quilos. Nova Pádua tem em torno de 1,3 mil hectares de uva e, no ano passado, foram colhidos 34 milhões de quilos.

Este cenário positivo é resultado do clima. O inverno com mais horas de frio abaixo de 7,2 graus garantiu uma boa brotação e a eliminação de fungos patógenos (capazes de invadir tecidos e causar doenças em humanos, animais e plantas).

– Nós temos as videiras americanas que tem menos necessidade de horas de frio, em torno de 150 a 200 horas. E as viníferas tem variedades que precisam de 400, 450 horas de frio, abaixo de 7,2 graus, para que haja a sintetização de fitohormônios que são responsáveis por uma boa brotação e emissão de cachos – explica Thompsson Benhur Didoné, que dá apoio técnico na área de viticultura da Emater em Flores da Cunha.

Ele complementa afirmando que o frio do ano passado foi bastante benéfico para as videiras:

– Nós tivemos um frio, em 2025, que atingiu essas horas (necessárias), um frio de qualidade. O que isso significa? Que não teve muita alternância de uma semana quente e uma semana mais fria.

Didoné também destaca que houve um “atraso” na colheita da uva e de outras frutíferas como pêssego, ameixa e maçã, e que isso se deve ao frio tardio registrado no final do inverno, início da primavera, mas adianta que os resultados não interferirão na quantidade e qualidade de uva da safra.

– É uma produção boa e a gente diria que (será) no mínimo 10% a mais do que uma produção normal, em termos de quantidade. Em termos de qualidade, a gente tem que avaliar semana a semana.

Intempéries

Infelizmente o cenário otimista não se repete com os produtores do Travessão Alfredo Chaves e demais localidades prejudicadas por eventos climáticos nos últimos meses. De acordo com o presidente do STR, os atingidos pelo tornado e/ou pela chuva de granizo tiveram perdas bastante significativas.

– Mas em relação a representação dos números gerais do município, isso não vai impactar muito. A área atingida, se tu comparar no nosso universo de 6,6 mil hectares, é uma área reduzida. Então não vai ter muito impacto em cima de números gerais de produção.

No entanto, Pagno reconhece que os agricultores prejudicados ainda sentirão o impacto negativo nas próximas safras, em virtude dos danos causados nas videiras.

“Não sei se esse ano vai chegar aos 30 mil quilos”

Uma das agricultoras que está sentindo as consequências negativas do clima na pele é Vanice Maria Sotoriva Baroni, 62 anos. Em sua propriedade, localizada na comunidade de Nossa Senhora Medianeira, no Travessão Martins, ela possui quatro hectares de uva das variedades Niágara, Bordô e Isabel e estima uma perda de 70 mil quilos da fruta.

– Em um ano normal, colhia em torno de 100, 110 mil quilos de uva, mas esse ano ia passar, ia ser bem mais, a safra ia ser boa. (Com o tornado e a chuva de granizo) não sei se vai chegar aos 30 mil quilos e isso não cobre os gastos – lamenta Vanice.

À frente da propriedade há 17 anos, desde que o marido Ulisses Baroni faleceu, a florense mora sozinha e conta com a ajuda de funcionários para colher a uva e entregar nas cantinas. Ela explica que a variedade Bordô, que já foi colhida, registrou uma queda de 70%, já a Niágara, como a colheita está no início, ainda é difícil precisar.

A florense relata que além de destruir os parreirais, o vento forte levou o coberto de sua casa e da garagem, as telhas do galpão de milho, dos galinheiros e da casa dos funcionários, além de ter derrubado pinheiros e laranjeiras sobre as videiras, provocando danos ainda maiores.

– Nem o forno de fazer pão, nada ficou coberto. Aqui na parte da cozinha ficou um pouco de telha de zinco em cima do coberto, mas lá para dentro, nos quartos, eu perdi tudo, não sobrou nenhum móvel, nenhum colchão, nada.

A agricultora emociona-se ao lembrar do episódio, definindo-o como um “pesadelo” que trouxe muita destruição.

– Aqui eu fui atingida bastante, todos os meus parreirais caíram. E o pior é que um não deu nem para erguer, até veio o pessoal do exército e eles ergueram um pouco, mas como quebrou bastante arame fica tudo caído. E não dava para emendar, porque tinha o peso da uva, então não deu para tratar e quando foi no fim acabou se perdendo a uva também – desabafa, acrescentando que muitas parreiras estão rachadas e foram retorcidas pela força do vento.

Diante deste cenário, Vanice confessa ter perdido o entusiasmo e a vontade de recomeçar:

– A gente já sabe que perdeu quase tudo, tem que aceitar que esse ano é desse jeito. Não tem muito o que fazer – lastima.

“Começar tudo de novo”

A florense agradece a todos os amigos, vizinhos e familiares que colaboraram. Ela também ressalta que contou com a ajuda da comunidade nos mutirões organizados pela Prefeitura para reerguer os parreirais, reestabelecer a energia elétrica, retirar as árvores que trancavam a estrada e cobrir os telhados danificados.

No entanto, ela aproveita para comentar que o agricultor ainda é pouco valorizado por tudo que faz e que os governos Estadual e Federal deveriam oferecer mais benefícios aos produtores rurais, uma vez que avalia a contribuição deles como “mínima”.

– Vai ser um trabalho grande, no meu caso, é como se eu fosse começar tudo de novo. E eu não sei o que eu vou fazer – conclui, com os olhos marejados.

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