O infarto é a doença que mais mata no mundo, sendo responsável por 16% do total de mortes globais, mantendo-se como a principal causa de mortalidade nos últimos 20 anos, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Estes números, somados à despedida precoce do vereador Horácio Natalino Rech (PL), que foi vítima de um infarto no fim de novembro do ano passado, levaram o vereador Oscar Francescatto (PL) a levantar uma reflexão na última sessão ordinária de 2025: Flores da Cunha possui apenas um médico cardiologista para uma população estimada em 32.015 habitantes (IBGE-2025).
– Eu me preocupo com o coração das pessoas. Eu falo isso porque hoje nós estamos com mais de 32 mil corações em Flores da Cunha e temos só um cardiologista, o Dr. Ezequiel Toscan. Temos só um médico para cuidar de tudo isso e, quando ele entra em férias, ficamos sem nenhum, então esse lado é preocupante – defendeu o vereador ao fazer uso da tribuna na sessão do dia 15 de dezembro.
700 consultas cardiológicas em 2025
Atualmente, Dr. Ezequiel Toscan é o único cardiologista a atender a rede privada (Círculo Saúde e Unimed Serra Gaúcha) e, de forma complementar, a rede pública de saúde de Flores da Cunha.
– O Dr. Ezequiel realiza atendimentos na rede pública municipal, por meio de agendas organizadas no Centro de Saúde, conforme a capacidade contratual estabelecida. No ano de 2025, foram realizadas mais de 700 consultas cardiológicas pelo SUS no município, número que demonstra a relevância desse profissional para a assistência local – informa a secretária municipal de Saúde, Jane Paula Baggio.
A chefe da pasta explica que, além do atendimento em Flores da Cunha, o município também utiliza a rede regionalizada do SUS, como o ambulatório de cardiologia de Garibaldi e os serviços de alta complexidade de Caxias do Sul, garantindo a continuidade do cuidado aos pacientes que necessitam de avaliação especializada.
“A maioria são casos ambulatoriais”
Com consultório em Flores da Cunha há mais de 25 anos, Dr. Ezequiel Toscan informa que a maior parte do atendimento cardiológico especializado de urgência precisa ser feita em centros de maior porte do que o que temos na Terra do Galo, que contam com UTI e laboratório de hemodinâmica (cateterismo), estrutura que está disponível no município de Caxias do Sul.
– A grande maioria dos casos atendidos aqui (Flores da Cunha), são casos ambulatoriais não urgentes, sem maior gravidade e que não necessitam de atendimento imediato. Alguns casos não graves são eventualmente atendidos pelo plantão do hospital que analisa e, se necessário, solicita avaliação cardiológica especializada.
Toscan esclarece que, quando o assunto é infarto, o tempo é crucial para que a vítima sobreviva:
– Poder identificar rapidamente os casos e contar com uma rede de apoio, seja via SUS ou privada, para recebê-los, é de suma importância para podermos disponibilizar o melhor tratamento possível para esses pacientes.
Em relação ao número de infartos na Terra do Galo, Toscan explica que não há dados oficiais, mas estima que tenhamos uma média de casos semelhantes à estadual, isto é, algo em torno de quatro ou cinco casos de infarto agudo do miocárdio por mês; o que representa em torno de um caso novo por semana.
“Inviabiliza ter um cardiologista de prontidão”
Nesse sentido, o médico reforça a importância de prevenir as doenças do coração, já que, segundo ele, a presença de outro cardiologista dificilmente mudaria os números apresentados.
– Um caso grave por semana inviabiliza ter um cardiologista de prontidão 24 horas por dia todos os dias. E o médico de plantão também não pode “perder tempo” aguardando que o cardiologista se desloque até o hospital. Temos trabalhado para que o médico que estiver na emergência consiga identificar de forma rápida esses casos, para que possam ser transferidos para atendimento adequado, sem perda de tempo.
Toscan complementa que muitos desses casos se apresentam na forma de morte súbita, muitas vezes fora do ambiente hospitalar, situações em que a presença de um ou vários cardiologistas não modificaria o cenário.
– Por isso a insistência na prevenção. O que pode mudar esses números é o investimento em educação e políticas públicas que tenham a capacidade de mudar o estilo de vida das pessoas e o adequado tratamento dos fatores de risco como obesidade, hipertensão arterial, diabetes e colesterol alto.
Por outro lado, a secretária de Saúde Jane Paula Baggio acredita que a ampliação da oferta de profissionais permitiria reduzir o tempo de espera, facilitar o acompanhamento contínuo dos pacientes e fortalecer a resolutividade da rede municipal.
– Existe demanda potencial para a ampliação da oferta de consultas cardiológicas no município. Esse cenário é influenciado pelo perfil epidemiológico da população, com moderada prevalência de doenças cardiovasculares, além do aumento da expectativa de vida – frisa Jane, acrescentando que a administração acompanha de forma permanente a oferta de especialistas na rede de saúde.

