Arquivo O Florense

15/02/2020 - 18:30

Uma Flores da Cunha de muitas bebidas

Além do tradicional vinho, o município demonstra que tem vocação para a produção de muitas outras bebidas, entre elas a cerveja

Terra do Galo e Maior Produtora de Vinhos do País. Flores da Cunha é lembrada por suas vinícolas e vinhedos espalhados pelo interior, mas os vinhos são apenas uma das bebidas produzidas no município. De Flores saem sucos, espumantes, destilados, vermutes, aperitivos, drinques, cachaças, refrigerantes, coquetéis, energéticos e por que não, cerveja. Uma bebida popular, a cerveja ganhou status na versão artesanal e virou bebida gourmet, contando com sommelier especializado e cursos para elaboração de cervejas caseiras, além das confrarias masculinas e femininas de apreciadores da bebida. Foi assim que nasceu a primeira cervejaria de Flores da Cunha, a RoosteR Bier, pioneira no município com a fabricação da cerveja artesanal.

A brincadeira de amigos se tornou negócio. Há quatro anos os florenses Mauren Bassanesi e Elias Fiorese começaram a estudar e conhecer o ramo cervejeiro. Após fechar as portas da vinícola da família, Bassanesi iniciou a distribuição de cervejas importadas e o gosto pelo setor foi crescendo. Os amigos formaram-se em mestres cervejeiros e começaram a buscar uma receita para a própria cerveja caseira. Há três meses o produto está sendo comercializado em Flores da Cunha e região. "Fomos tomando gosto e foi então que o Wagner também entrou como sócio. Assim decidimos expandir e investir no ramo. Eu já conhecia o processo, tinha contatos e fomos montando a nossa cerveja", conta Bassanesi. A sociedade foi concluída com o sócio Wagner Uliana.

A receita foi resultado de muitos testes e hoje a cervejaria RoosteR conta com cinco receitas, mas por enquanto comercializa apenas a Pilsen, vendida em municípios da região. O produto ainda não possui engarrafamento, esse será o próximo passo do negócio. "Para restaurantes vendemos em um recipiente de porcelana com capacidade para dois litros. Para o público disponibilizamos os barris e com as garrafas queremos atingir os mercados. Esse será nosso próximo investimento, assim como aumentar a fábrica e a produção e instalar uma câmara fria", planeja Bassanesi.

Atualmente a cervejaria conta com uma produção mensal de mil litros. Segundo o cervejeiro, as cervejas artesanais fazem parte de um mercado novo e em crescimento acelerado. "Estou a quase cinco anos neste meio e o crescimento é anual. O ritmo agora é beber menos, mas beber melhor. Os consumidores estão deixando de lado aquela cerveja lavada, de alta produção, para dar espaço ao produto de qualidade", destaca o empresário. A cervejaria RoosteR Bier é considerada a pioneira e única no município. Possui alvará e licenças necessárias para a fabricação, com equipamentos feitos sob medida em Bento Gonçalves. O investimento inicial foi superior aos R$ 120 mil. "O material se paga se souber fazer com qualidade e conhecimento", acrescenta Bassanesi. A cervejaria tem sua fábrica estruturada na comunidade de Santa Bárbara.

A produção

A cerveja RoosteR é feita por um processo chamado brasagem. A técnica é feita antes da fermentação da cerveja, onde acontece a moagem do malte, mostura, filtração/clarificação e por último a fermentação e maturação. Cada receita possui um tempo e uma temperatura, podendo chegando a seis horas de processo, além de 15 dias para fermentação.

O cervejeiro Mauren Bassanesi explica que a receita segue a famosa Lei de Pureza da Cerveja, criada na Alemanha, que leva água pura, malte (responsável pelo corpo da cerveja), lúpulo (responsável  por ser o conservante natural da cerveja e também pelo aroma ou amargor e a espuma) e fermento (que transforma o açúcar vindo do malte em álcool, e também ajuda no aroma). "Utilizamos dois maltes, um brasileiro e outro alemão. Nossa receita foi resultado de muitos testes até chegarmos ao ideal. Depois que o consumidor passa a provar o produto artesanal é difícil voltar para a cerveja normal, por isso esse mercado cresce tanto. A qualidade e aroma em boca são totalmente distintos", valoriza Bassanesi.

A marca

A RoosteR Bier foi escolhida como forma de homenagear Flores da Cunha. Rooster significa galo em inglês. "Fizemos uma pesquisa para a escolha do nome. Ainda estamos adequando nossa marca, mas o nome está definido e é uma forma de lembrar da nossa cidade", conta Bassanesi. O desenho do galo, que ilustra a marca, teve a primeira divulgação entre amigos e por redes sociais. "Nossa capacidade mensal foi vendida desde o início. Por estarmos em meses frios a venda foi muito boa e acredito que no verão será ainda melhor. A cerveja tem concorrência, mas o mercado também é grande. Tem trabalho para todo mundo", acrescenta Bassanesi.

A cerveja artesanal

Há muito tempo a cerveja era uma bebida masculina associada a bares barulhentos e bagunça. Mas hoje seu status mudou. É considerada uma bebida gourmet e que pode acompanhar pratos elaborados da alta gastronomia. Essa mudança fez com que a bebida caísse nos braços dos consumidores que querem fugir da padronização de aromas e sabores.

No último dia 21 o Ministério da Agricultura criou uma nova legislação que permite o uso de diferentes ingredientes para a produção de cerveja nacionais. Com a medida aprovada em agosto, é possível que, já a partir de 2015, a indústria esteja liberada para ousar em suas combinações, utilizando matérias-primas variadas na fabricação da bebida.

O movimento cervejeiro no Brasil ganhou força em 2005, quando os impostos para a bebida influenciaram na procura por utensílios, matéria-prima e equipamentos para a elaboração artesanal (homebrewing). Como consequência, clube de colecionadores foram formados, confrarias começaram a se reunir para degustações e concursos foram organizados.

Flores do galo e das bebidas

A cerveja RoosteR tem uma característica em comum com a trajetória de Flores da Cunha e das bebidas. Traz como marca o galo que foi símbolo de uma das famílias que escreveu sua história no setor de bebidas no município: a família Kunz.

Com seis gerações envolvidas, a família Kunz escolheu Flores da Cunha para deixar o legado maior. Assim conta um dos representantes da sexta geração da família Kunz que seguiu no ramo de bebidas, o profissional em marketing Júlio César Kunz. "Vou repedir algumas palavras do meu avó Eloy Kunz. Ele costumava dizer que Flores da Cunha tinha uma geografia mágica e muito especial que de alguma maneira influenciava na alegria do povo. Onde tem vinho tem alegria e por isso Flores da Cunha tem essa vocação para bebidas. Na verdade as bebidas não servem para matar a sede ou alimentar, mas para ajudar nos nossos momentos de alegria. Estar junto com as pessoas que gostamos e nos divertir. São as pessoas de Flores que fazem essa vocação se perpetuar", garante Júlio.

Foi a descendência alemã da família Kunz que trouxe para o Brasil o gosto por fabricar no porão de casa algumas bebidas de modo artesanal, mas com qualidade, como as bebidas Premium. São mais de 150 anos de envolvimento, desde a chegada do imigrante Joses Kunz ao Rio Grande do Sul, até o desenvolvimento que fez de Flores da Cunha um município de muitas bebidas e com orgulho de ser a Terra do Galo.

Joses tinha como profissão a tanoaria e com isso fazia barris de madeira. "Acreditamos que por ter os barris ele teria começado a produzir bebidas. Não temos o registro exato se isso começou aqui ou ainda na Alemanha", conta Júlio. A produção em Novo Hamburgo, onde residiam, iniciou com o imigrante e teve seu processo industrializado com o filho Nicolau Júlio Kunz. A produção era exclusiva para destilados, o primeiro produto foi o Run e depois vieram os licores e outras bebidas quentes. Na época algumas bebidas foram exportadas, chegando as 100 mil garrafas por ano. "Hoje o Brasil representa pouco mais de 1% do comércio internacional, imagine nesta época onde a economia era mais fechada. Foi realmente um grande passo", relembra Júlio.

Filho de Nicolau, Emílio Kunz foi um dos primeiros enólogos da região. Por problemas de saúde mudou-se para Gramado e na Serra Gaúcha Emílio também seguiu os passos da família. Na década de 1930 fundou a Vinícola Petronius. O vinho era um novo segmento e a vinícola ficou conhecida por ser uma das primeiras no Brasil a dedicar-se exclusivamente aos vinhos finos. Embora o setor fosse uma novidade, Emílio não deixou de produzir os destilados já tradicionais na família. Seu filho, Eloy Kunz foi a quarta geração que deixou seu legado principalmente em Flores da Cunha.

Divulgação e desenvolvimento

Se hoje Flores da Cunha é conhecida como a Terra do Galo certamente um dos responsáveis por isso foi o avó de Júlio, o empreendedor Eloy Kunz. Ele seguiu os passos da família e se dedicou ao setor das bebidas. Após trabalhar e adquirir experiência na área, Eloy uniu forças à família Fante e juntos iniciaram uma diversificada produção no município. Mesmo com a separação e a fundação da E. Kunz e Cia Ltda, o objetivo sempre foi de desenvolver o setor. "Meu avó tinha uma habilidade muito grande em motivar as pessoas para se juntarem em torno de uma ideia em comum. Apesar de levar o nome dele, a empresa florense contava com uma companhia limitada bem grande, com muitos sócios", destaca Júlio.

A partir de então a ligação da família com Flores da Cunha se fez de forma permanente. Durante muito tempo Flores da Cunha e seus moradores sofreram com o estigma gerado por outras cidades a partir da história do galo. Eloy teve o envolvimento direto com a identificação do município como a Terra do Galo quando, na metade da década de 1960, teve uma audaciosa estratégia: transformar, a partir de produtos comerciais produzidos pela E. Kunz e Cia LTDA, que utilizavam o galo como marketing, o estigma que o município carregava consigo. Hoje Flores da Cunha orgulha-se de ser lembrada como a Terra do Galo.*

*Com informações do livro 'Do Galo da Vergonha ao Galo da Prosperidade', de Carla Saretta.   

A cerveja é o novo passo

Neste ano Júlio, o irmão Augusto e o pai Emílio uniram conhecimentos e inauguraram a Petronius Cervejaria e Destilaria. "O nome foi uma maneira de retomar a tradição da família e fazer isso que é uma paixão do meu pai, o produzir em casa e ter essas referências da família", acrescenta Júlio. O irmão Augusto, embora a pouca idade - 17 anos, fez um curso técnico em cervejeiro e começou o trabalho. Segundo Júlio, a ideia é começar com as cervejas e depois acrescentar os destilados. "O objetivo é trabalhar somente com cervejas e destilados diferenciados, retomando o conceito da história da família e as marcas que já foram consagradas nessa trajetória. Sempre com produtos premium", valoriza. A primeira cerveja deve ser lançada em Caxias do Sul em novembro e os destilados contarão com receitas antigas resgatadas de um livro de Eloy Kunz.

Emílio Kunz Neto seguiu os passos do pai Eloy, mas buscando novidades. "Meu pai começou seu trabalho quando montou uma distribuidora e fábrica de bebidas em Caxias. Ele trabalhava simultaneamente com o meu avó em Flores", conta Júlio. Com os produtos incorporados pela Fante Indústria de Bebidas, em 1998 Emílio retornou para a empresa com novas ideias e trazendo o toque dos Whiskys envelhecidos assim como a linha pocket. Ele permaneceu na Fante até 2013.

Júlio e o irmão Augusto representam a sexta geração de uma família dedicada ao setor de bebida. "Comecei na Fante desenvolvendo o trabalho de início das exportações. Após meu mestrado que envolve o setor vitivinícola, segui meu caminho com consultoria para diversas vinícolas. Hoje nos juntamos com um projeto em comum", acrescenta Júlio.

* Matéria originalmente publicada na edição de agosto de 2013.

Por Camila Baggio

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