Arquivo O Florense

21/04/2019 - 18:30

Uma cidade movida pela fé

A religiosidade modificou-se, os evangélicos conquistaram espaço numa comunidade até então católica e o ‘santo florense’ está prestes a ser beatificado

Os imigrantes que aqui se instalaram eram quase em sua totalidade católicos convictos. Porém, à piedade católica peninsular faltava o local apropriado para o culto. Por isso, cotizando-se, os colonos decidiram construir uma capela. De início foram construções simples e pobres ‘dignas do presépio de Belém’. Aos poucos foram melhorando, seguindo os modelos arquitetônicos ao estilo das igrejas de vilarejos italianos. Ao redor da capela começou a girar, de modo quase absoluto, a vida social dos imigrantes”. Nas palavras dos escritores Luís De Boni e Rovílio Costa, em Os Italianos do Rio Grande do Sul, é possível perceber que a religiosidade foi um dos pilares do povo florense. Se desde a imigração, em 1875, ela alicerçou a vida em sociedade, nos últimos 25 anos – quando O Florense foi fundado – não foi diferente. Folheando as páginas do jornal, é possível verificar que a fé modificou-se, o número de não-católicos ampliou-se, a primeira ordem das Irmãs Clarissas Capuchinhas instalou-se na cidade e um frade foi elevado à categoria de o ‘santo florense’ e angariou uma multidão de fiéis que todos os anos deslocam-se a Flores da Cunha para, justamente como escreveram De Boni e Costa, orar e socializar junto à igreja construída no Eremitério.

Em uma pesquisa encomendada pelo O Florense, no ano de 2008*, 85% dos florenses entrevistados intitularam-se católicos, 5% evangélicos, 4% espíritas, 3% com outra religião e também 3% sem nenhuma religião. Para o pároco frei Álvaro Morés – que atua há pouco mais de um mês na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes – o povo florense cultiva fortemente a religiosidade católica porque ela faz parte de sua história cultural e de suas raízes. “Há uma participação intensa da comunidade nas celebrações, nas romarias, nas festas religiosas e isso é algo que vem de berço. Por outro lado, sinto que há uma dificuldade com os jovens. Há tantas oportunidades e propostas hoje que a juventude tem fé, mas é menos participativa. E esse é o nosso desafio: evangelizar, a partir da catequese, e mostrar que a religião não é uma tradição cultural, mas uma opção de vida”, explica Morés.

 

Outras religiões

Apesar da massiva dominância católica em solo florense, as demais religiões também conquistaram seu espaço nos últimos 25 anos. De acordo com a dissertação de mestrado ‘A Dominação Ideológica da Igreja Católica Oficial sobre a População Urbana de Flores da Cunha’ de Estela Maris Araldi Fontana, em 1986, Flores tinha quatro igrejas não-católicas: Congregação Cristã no Brasil, instalada no município em 1982; Igreja Missionária Naun Soares (1984); Igreja Evangélica Assembléia de Deus (1964); e Igreja Missionária ‘Só o Senhor é Deus’ (1979). Ainda segundo a tese, juntas, essas igrejas somavam pouco mais de 230 fiéis.

De lá para cá, os tempos mudaram. Conforme o pastor da igreja evangélica Assembléia de Deus – a mais antiga no Município –, Sílvio Stacke, somam-se atualmente mais de 30 denominações evangélicas. Somente o Loteamento Pérola abriga 12 congregações. O município tem ainda duas casas espíritas. “A igreja está bem presente e representada nos dias atuais, principalmente nos bairros e vilas. Eu diria que 10% da população de Flores é evangélica hoje”, afirma Stacke.

De acordo com o pastor e fundador da igreja ‘Só o Senhor é Deus’, José Maria de Barros, a fé evangélica se propagou no decorrer dos anos. “No início a religião evangélica era tida apenas para as pessoas menos esclarecidas, digamos, mas hoje não é mais assim. Em 1998 fiz uma viagem, junto com outros pastores, para Jerusalém, e conseguimos difundir a religião para todas as classes”, diz Barros, que após ouvir um anúncio sobre a vinda de uma filial da igreja a Caxias do Sul (a matriz encontra-se em Maringá), foi conhecer o templo e decidiu fundar uma igreja em Flores da Cunha. “Em 1990 inauguramos o templo e como isso também a religião foi se tornando mais conhecida, porque do inicial de 50 passamos a mais de 300 fiéis”, pontua.

*Pesquisa encomendada pelo O Florense em virtude da Edição Mil feita pela UCS Empresa Júnior com base em 400 questionários.

 

O “santo florense”

Em 1986, já se fazia sete anos que o processo de canonização de Frei Salvador havia sido iniciado. Mas foi em 1988 que o capuchinho estendeu sua fama de santo. Em 30 de dezembro de 1988, O Florense noticiava que o corpo do frade havia sido transladado do jazigo dos freis Capuchinhos, no cemitério municipal, para a Igreja Matriz. Com autorização do bispo dom Paulo Moretto, em 26 de julho de 1988, procedeu-se a exumação dos restos mortais de frei Salvador Pinzetta. Conforme pregava frei Aloísio Pérsici no jornal da época, o objetivo era salvar os restos mortais do frade da deterioração, pois estes se encontravam em um lugar muito úmido. Foi assim que às 11h30min daquele dia, os freis Leonel Santini (pároco), Aloísio Pérsici (vigário paroquial) e Urbano Poli, e o zelador Alcides Magrin, foram até o cemitério municipal e tomaram seus restos mortais: os ossos, um crucifixo e o hábito com que fora sepultado. O material foi conduzido ao Mosteiro Nossa Senhora do Brasil, das Irmãs Clarissas Capuchinhas – que havia se instalado em Flores da Cunha em 8 de dezembro de 1981 –, com a finalidade de ser limpo e tratado convenientemente pelas irmãs e, em seguida, ser depositado numa urna feita para este fim. As religiosas executaram fielmente a demorada tarefa. Conforme Irmã Clara, que participou da exumação, elas receberam um saco onde estava o hábito, os ossos, os cabelos e a barba. O hábito foi lavado e com uma pinça foi retirada toda a barba do frei e o resto dos cabelos. Tudo foi lavado e os ossos organizados segundo a estrutura de um esqueleto. Durante sete dias, os ossos eram expostos ao sol para secarem. “Foram dias de muita oração e recolhimento. As irmãs se revezavam para guardar os ossos”, conta a capuchinha.

Irmã Clara relembra que o momento de maior emoção foi quando uma das irmãs, não conseguindo limpar um dos ossos, percebeu que estava diante da pele do osso indicador da mão direita. “Esse era o dedo com o qual Frei Salvador segurava a Eucaristia e é uma demonstração de sua fé”, afirma. Os ossos foram depositados em uma urna, juntamente com alguns objetos. Até hoje as irmãs resguardam todo o material que utilizaram no processo e objetos pessoais do frei, como a cruz, as meias e pedaços de tecidos. “Foi um momento gratificante o tempo que ele permaneceu aqui. Sentíamos uma paz enorme e uma presença divina”, diz a irmã.

No jornal consta que “no dia 1º de agosto de 1988, os restos que sobraram do corpo de Frei Salvador puderam ser depositados na nova urna. Depois de evocar a figura modelar do falecido, sua simplicidade de vida, seu corpo foi conduzido ao mesmo jazigo”. Todo o processo foi feito em silêncio, sem que o povo florense soubesse. Isso para evitar tumultos. Foi somente em 21 de dezembro de 1988, com a presença do bispo dom Paulo, efetuou-se a exumação do corpo de Frei Salvador e sua transladação do cemitério para a Igreja Matriz. Estavam presentes diversos freis e admiradores do frade. “Foi feita a leitura de sabedoria 3,1-6,9: ‘As almas dos justos estão nas mãos de Deus’. Dom Paulo declarou que os fiéis podiam rezar junto ao seu túmulo, mas não deverá haver nenhum ato público. E para evitar isso não serão rezadas missas junto a esta sepultura; junto aos outros túmulos pode-se até celebrar missa, junto a esse não”, consta na edição 60 de O Florense. Após as declarações, a urna foi depositada no túmulo cavado no piso do templo. Ficou estabelecido que em dois domingos não consecutivos os freis deveriam esclarecer ao povo o porquê e o sentido de Frei Salvador na Igreja Matriz. Dava-se início a uma peregrinação que dura até os dias atuais.

Conforme conta Valentin Coloda no livro Frei Salvador Pinzetta – Sou o que sou diante de Deus, a pedido de Frei Lori Vergani à Equipe Vocacional começou a divulgar e promover a vida do capuchinho. “Surgiu a ideia de fazer uma caminhada até o túmulo de Frei Salvador no cemitério municipal. Num domingo a tarde foi iniciada a caminhada em frente ao salão paroquial com cantos e rezas. Poucas pessoas começaram, mas durante o percurso foi-se ajuntando mais”, diz. Assim deram-se início as romarias em homenagem ao Frei Salvador. Primeiramente ao túmulo e depois até o Eremitério, onde o frei costumava rezar.

Em 1989, às vésperas de celebrar a procissão de Corpus Christi, a comunidade florense decide transferir a peregrinação para junho com a finalidade de homenagear o aniversário de falecimento do frei – 31 de maio de 1972. A romaria passou então a acontecer junto com as celebrações de Corpus Christi. “Em 2 de junho de 1989 aconteceu a primeira romaria vocacional ao oratório do servo de Deus. Os fiéis dirigiram-se ao interior da igreja para ouvir depoimentos de parentes e pessoas que conheceram o frei. Estava consolidado o processo de beatificação. O povo confirmava a sua santidade com relatos de pessoas da comunidade”, publicou o jornal O Florense na sua edição 70.

Beatificação

No ano seguinte e nos subsequentes, a caminhada passou a ocorrer paralelamente à celebração de Corpus Christi. Com o passar do tempo, começaram a ser distribuídas durante a missa sementes e mudas, isso porque o frei costumava entregar a quem lhe pedisse hortaliças. A fama de Frei Salvador se alastrou e caravanas de todo o estado passaram a visitar o Eremitério. No ano de 2009, no local de sete hectares, foi inaugurada a capela Nossa Senhora de Fátima, dedicada ao Frei Salvador. Neste ano, a Romaria chegou a sua 23ª edição com a participação de cinco mil pessoas.

Outro passo decisivo foi dado neste ano quando foi instalado o Tribunal Eclesiático Diocesano para início do processo de beatificação e canonização do frade capuchinho. Segundo o postulador da causa, Dom Ângelo Domingos Salvador, a primeira etapa dos trabalhos está em fase final. Já foram ouvidas todas as testemunhas (pessoas que conviveram como o frade) e, no momento, estão sendo colhidas as assinaturas dessas testemunhas sobre o que foi relatado. São cerca de 470 páginas com depoimentos. Concomitantemente, os arquivos anteriores a abertura do processo também estão sendo organizados. “Vamos ordenar esse material para que depois o juiz do processo faça o seu parecer e os documentos sejam encaminhados ao Vaticano, em Roma”, explica Dom Ângelo. Até o final do ano, o Tribunal pretende concluir o processo e enviar para Roma, para que no início do próximo ano o material seja analisado pelo postulantado geral, que verificará se Frei Salvador pode ser declarado como santo.

O frei sorridente

Se Frei Salvador era tido como um santo, o homem que ajudou a resguardar seus restos mortais, também fez Flores sorrir. Frei Aloísio Pérsici era, como descreve a Irmã Clara, “muito alegre, simples e espontâneo”. Conhecido por dirigir um ‘fusquinha vermelho’, conviveu durante 12 anos junto ao povo florense. Tendo a afeição unânime da comunidade – fruto de uma personalidade marcada pelo bom humor, benevolência e disposição - sua morte, em 14 de dezembro de 1999, causou grande comoção. Na época, o jornal O Florense anunciou em sua capa: ‘Para a Casa do Pai – Comunidade perde Frei Aloísio Pérsici’. Em reportagem de duas páginas dizia: “Flores da Cunha ficou menos alegre essa semana. Às 4h de terça-feira dia 14 de dezembro, o município perdeu uma das figuras religiosas mais carismáticas de sua história, o Frei Aloísio Pérsici, de 87 anos. Aloísio faleceu em seu quarto, no Convento dos Capuchinhos. A causa mortis foi falência generalizada de órgãos. Foram 12 anos de convívio com os florenses, como vigário paroquial, período caracterizado por uma atuação marcante, que inclui, entre outras atividades, a participação ativa no projeto da Terceira Idade e na Ordem Franciscana Secular”.

A comunidade lotou a Igreja Matriz para se despedir do frei, que antes de morrer desejou: que seu sepultamento fosse na cova que um dia recebeu Frei Salvador e uma missa fúnebre alegre. Foi declarado luto oficial de três dias. Após a missa o corpo foi levado ao Convento das Irmãs Clarissa Capuchinhas para as irmãs se despedirem do frei. “Ele tinha um amor muito grande por nós”, recorda Irmã Clara.

Frei Aloísio foi agraciado, em 1992, com o título de ‘Cidadão Florense’, pela prova de carinho que despertou no município. No município, também celebrou o Jubileu de Ouro (50 anos de vida sacerdotal) e o de Diamante (60 anos).

 

Matéria originalmente publicada em 4 de outubro de 2011, no especial sobre os 25 anos do Jornal O Florense.

 

Por Danúbia Otobelli - Danubia@jornaloflorense.com.br

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 - Camila Baggio

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