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Produtores rurais enfrentam adaptação à nota fiscal eletrônica em Flores da Cunha

Com o fim do talão impresso, agricultores aprendem a emitir notas por aplicativo; mudança impacta quem vende dentro e fora do Estado
A agricultora Tarlice Sandi contou com os treinamentos do sindicato para se adaptar à tecnologia (Foto: Klisman Oliveira)

Em Flores da Cunha, o trabalho no campo agora exige mais do que plantar e colher. Desde a primeira semana de janeiro, produtores do município enfrentam a transição do antigo talão de notas fiscais rurais para a versão eletrônica, emitida por aplicativo. O modelo impresso deixou de ser aceito e o uso digital passou a ser obrigatório.

Para quem planta e vende dentro do Estado, o prazo para se adaptar foi estendido até o fim de abril. A modernização promete agilidade e segurança, muitos produtores precisam aprender a lidar com aplicativos, emitir notas offline e enviá-las quando o sinal de internet chega.

Segundo a Secretária da Fazenda de Flores da Cunha, Flávia Bombardelli, o impacto da digitalização é visível nos números:

— Atualmente, o município conta com 3.814 inscrições rurais ativas. Ao longo de 2025, 325 produtores rurais passaram a emitir notas fiscais de forma eletrônica, em razão da obrigatoriedade aplicada às operações realizadas com outros estados e aos produtores com faturamento bruto anual superior a R$ 360 mil — relata a secretária, que destaca a relevância do dado:

— Embora esse número represente uma parcela reduzida do total de inscrições, esses produtores concentram aproximadamente 40% do valor adicionado apurado, por contemplarem aqueles com maior volume de movimentação econômica — contextualiza.

Nos últimos meses, a Secretaria de Agricultura de Flores da Cunha intensificou esforços para preparar os produtores para a obrigatoriedade da nota fiscal eletrônica.

— Inicialmente, se achava que a nota fiscal iria ser obrigatória para todos, mas depois houve mudanças. A gente foi atualizando o pessoal para informar que ainda pode ser usado o talão de produtor até o final de abril, para produtores que faturam até 360 mil por ano. Somente dentro do estado — explica o secretário de Agricultura Jamur Mascarello.

Aplicativo

Mesmo com a informação disponível, a adaptação exige prática e paciência, principalmente para quem nunca lidou com aplicativos.

— As maiores dificuldades são com alguns produtores que não mexem muito com o celular, porque é um aplicativo… o Nota Fiscal Fácil, que é bem tranquilo para emitir a nota. O pessoal que tem menos contato com tecnologia, acaba enfrentando mais dificuldades. Mas, mesmo sem sinal de internet, o aplicativo funciona — complementa o secretário.

O Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares (STR) de Flores da Cunha e Nova Pádua também tem atuado como ponte entre os produtores e o governo.

— Não sabemos se o governo irá emitir novos talões. Não sabemos exatamente como o governo do Estado irá proceder, uma vez que o prazo foi prorrogado até o dia 30 de abril, mas acreditamos que não serão fornecidos novos talões — alerta o presidente do STR, Ricardo Pagno.

Para evitar problemas futuros o secretário Mascarello lembra que existe um prazo para correções de eventuais erros:

— No caso de emissão errada da NF, o prazo para cancelamento é de até 24 horas após a autorização da NF-e pela SEFAZ, desde que a mercadoria ainda não tenha circulado. O ideal é enviar a NF-e para alguém revisar, para que o erro seja detectado antes da mercadoria sair da propriedade. Assim, é possível cancelar, emitir a NF-e correta e só então permitir o trânsito da mercadoria — ressalta.

“Organização e planejamento”

A experiência da nota fiscal eletrônica se reflete na rotina de quem planta. Para alguns produtores florenses, a mudança exige adaptação prática e atenção aos detalhes e a tecnologia que já faz parte do dia a dia.

Tarlice Dullius Sandi, 42 anos, mora na Capela São Francisco e cultiva uvas. A transição do talão para o aplicativo foi incorporada à sua rotina durante a última safra, depois de treinamentos e simulados oferecidos pelo sindicato.

— Minha experiência ao migrar para a nota eletrônica foi muito boa. Fiz treinamento no sindicato e já coloquei em prática na safra passada. Não achei difícil, porque fiz simulados e treinamentos antes. A gente estava acostumada com o talão de produtor, então parecia que era um bicho de sete cabeças. Mas é bom ir colocando em prática, pois vai ser a nossa realidade daqui por diante — avalia.

Ele destaca que a atenção aos detalhes faz diferença na emissão das notas.

— São os mínimos detalhes que devemos prestar muita atenção na hora preencher os campos necessários, pois informações erradas podem complicar depois.

A tecnologia exige adaptação e planejamento, mas também organização.

— Eu gostava mais do talão, mas, como a tecnologia está avançando cada vez mais, temos que nos acostumar. Para a minha rotina, às vezes é mais difícil, mas tudo é questão de organização e planejamento.

“É um processo de descobertas diárias”

A rotina de Deise Dani, 38, mostra outro perfil de produção e desafios diferentes. Moradora do distrito de Otávio Rocha, ela cultiva morango e kiwi, além de outros hortifrútis.

— É um processo de organização e descobertas diárias. Sempre vou aprendendo, reunindo informações que busco com diversas pessoas, entidades e órgãos públicos. No começo foi complicado, porque as informações disponíveis eram poucas, as pessoas que sabem dar orientação também são poucas, e teoria e prática precisam andar juntas, tanto para o produtor quanto para a empresa para a qual ele for vender — avalia.

O acesso à internet em Otávio Rocha facilita o processo, mas ela reconhece que em outras localidades pode ser um problema. Para Deise, a organização é a chave, e o aprendizado da nova rotina é contínuo.

— Sugiro que as cantinas adotem um padrão e tenham alguém para ajudar na emissão das notas, já deixando o cadastro pronto antes. Muitos, com certeza, vão ter dificuldade, pois vai ter aquele senhor que não tem telefone, não tem e-mail, não sabe a senha Gov — sugere.

 

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