No Dia das Mães, as redes sociais assumem o papel de um grande álbum coletivo. Entre uma postagem e outra, surgem homenagens, fotos em família e mensagens afetuosas. Para muitas mulheres, é também uma forma de registrar o que vivem, dentro das suas possibilidades, com o tempo, os recursos e a energia disponíveis.
Mas, por trás desse movimento aparentemente leve, há camadas menos visíveis. As publicações que emocionam também podem acionar comparações. Não necessariamente sobre a data em si, mas sobre tudo o que a atravessa, como a forma de maternar, a relação com os filhos, o cansaço, as escolhas e até o próprio corpo.
Nos perfis de grande alcance, esse padrão ganha escala. Influenciadoras como Virginia Fonseca, com 54,8 milhões de seguidores, e Viih Tube, com 32,2 milhões, têm a rotina acompanhada de perto por milhões de pessoas. Da maternidade ao cotidiano em família, cada detalhe é compartilhado, incluindo momentos íntimos, decisões sobre criação e a relação com o corpo após a gestação. O que poderia ser apenas registro pessoal se transforma em vitrine e, junto com ela, uma enxurrada de comentários.
Opiniões sobre como educar, o que expor ou como se comportar como mãe surgem com frequência. Nesse ambiente, a maternidade deixa de ser apenas vivida para também ser avaliada em tempo real. Ainda que esse tipo de exposição esteja concentrado em perfis de grande alcance, seus efeitos não se restringem a eles.
O peso da comparação nas redes
Em Flores da Cunha, mães relatam sentir reflexos semelhantes. A comparação não se dá, necessariamente, por meio de comentários públicos, mas por uma sensação persistente de estar aquém de um padrão que parece inalcançável. Entre a rotina possível e aquilo que se apresenta nas telas, instala-se um desconforto difícil de ignorar.
Em meio a esse cenário, a florense Rayne Giotti Suzin, 23 anos, que atua na área comercial e é mãe da Ana Luísa, de 2 anos e 2 meses, afirma que usa as redes para achar referências e compartilhar sua rotina, mas já viveu momentos em que a comparação também a afetou.
— Eu usei muito as redes sociais para buscar informações durante a gravidez porque é tudo muito novo e hoje em dia, a meu ver, é o melhor método que a gente tem para se informar e aprender de fato sobre essa nova fase. Desde o início eu uso para compartilhar momentos — conta.
Ao longo da experiência como mãe, ela também passou a lidar com um outro lado dessa exposição, marcado por opiniões externas e leituras sobre sua forma de maternar.
— Eu sempre recebi muitas mensagens de outras mães com opiniões diferentes da minha. Já questionaram a alimentação que eu dava para a minha filha, perguntaram sobre a amamentação.
Para ela, a idade também influenciou na forma como essa cobrança foi percebida.
— Sendo uma mãe mais nova, acredito que exista ainda mais essa questão da pressão e do julgamento. Eu senti isso principalmente quando estava grávida, porque muitas pessoas querem dar opinião sobre como tudo deve ser feito. Mas vai de cada mãe absorver — opina.
Maternidade sob julgamento
Pesquisas recentes ajudam a dimensionar esse fenômeno. Um estudo conduzido pelas pesquisadoras Shayla Sharmin e Sadia Afrin, aponta que 41,3% das mães evitam participar de grupos de maternidade no Facebook por medo de julgamento. O dado expõe uma contradição, espaços criados para troca e apoio também podem se tornar ambientes de exposição e crítica, alimentando inseguranças.
A comparação aparece como um dos principais efeitos desse cenário. Um levantamento da plataforma Refinery29, publicado em 2024, indica que 82% das mães admitem se comparar com outras nas redes sociais, enquanto 69% relatam insegurança em relação à forma como vivenciam a maternidade. 39% dizem não estar satisfeitas com o corpo no pós-parto, 38% acreditam que outras famílias se divertem mais e 30% sentem que outras mães têm mais tempo para si mesmas.
A pesquisa “Materna – O que pensam e querem as mulheres”, realizada pelo UOL em parceria com a MindMiners, ouviu 1 mil mães de diferentes regiões do Brasil e mostrou que 95% utilizam redes sociais, sendo que 60% passam entre uma e cinco horas por dia nessas plataformas. O estudo também indica que 93% buscam ativamente informações sobre maternidade, enquanto 88% gostariam de receber mais conteúdo sobre o tema.
A lógica da vida editada
A psicóloga Sara Cavalli observa que o impacto das redes sociais na maternidade não está apenas no conteúdo consumido, mas na forma como ele passa a moldar percepções e expectativas. Segundo ela, a exposição constante a recortes idealizados cria parâmetros difíceis de alcançar e interfere na forma como as mulheres avaliam a si mesmas.
— A comparação é central porque ela acaba atuando como uma régua invisível para o nosso próprio valor. E nesse contexto nem sempre estamos nos comparando com celebridades, mas com pessoas à nossa volta que parecem iguais a nós, e fica aquela questão: se ela consegue ser perfeita, por que eu não consigo — afirma.
Em outro ponto, ela chama atenção para a forma como essas referências são construídas no ambiente digital.
— A gente acaba tendo uma vida editada nas redes sociais. Vemos apenas os melhores momentos, com filtro, edição e tudo organizado. Essa exposição a padrões idealizados gera uma dissonância entre o eu real e o eu ideal — explica.
A psicóloga acrescenta ainda que o impacto não se limita à comparação direta, mas pode intensificar sentimentos já presentes na rotina da maternidade.
— Elas funcionam como um acelerador dos sintomas. A ansiedade pelo medo de não estar oferecendo o melhor ou o mais moderno na criação dos filhos aumenta. A culpa aparece quando a mãe sente raiva ou cansaço, sentimentos que são higienizados nas fotos perfeitas. E a insuficiência surge do ‘scroll’ infinito, em que sempre há alguém fazendo mais, sendo mais paciente — finaliza.

