Mais do que aprender a se defender, reconhecer uma situação de risco, saber como reagir e encontrar uma rota de fuga são conhecimentos que podem contribuir para a proteção de mulheres diante de situações de violência. Foi com esse propósito que cerca de 25 mulheres participaram, no sábado (15), de uma aula gratuita de defesa pessoal realizada na Academia Kombat Fit, em Flores da Cunha, dentro da programação municipal do Agosto Lilás.
A atividade foi conduzida pelos personais Gicele Pinto, 37 anos, e Jeferson Romitti, 37, com o auxílio da professora Tatiane De Castilhos Garibaldi e de algumas alunas da academia de Muay Thai. Durante a aula, as participantes passaram por aquecimento e alongamento antes de iniciarem as atividades práticas. Foram trabalhados golpes como socos, cotoveladas e joelhadas, inicialmente no ar e, depois, em exercícios realizados em duplas.
Também foram apresentados conceitos básicos para que as participantes pudessem se desvencilhar de um possível agressor, incluindo técnicas para sair de situações em que a mulher esteja imobilizada ou sob o corpo do agressor.

(Foto: Nadine Dilkin)
“A gente tem, sim, a chance de se defender”
Entre as participantes estava a advogada Diennifer Lagemann, 29 anos, que frequenta a academia há cinco meses, mas ainda não havia tido contato com técnicas específicas de defesa pessoal.
Diennifer conta que a principal motivação para participar foi buscar mais segurança. Ela se surpreendeu ao perceber que algumas técnicas são simples e podem ser utilizadas em uma situação de risco.
— Tudo que eu aprendi eu considero importante. E me surpreendeu o fato de que são coisas simples que a gente pode fazer para se defender — relatou.
Para ela, a sensação de segurança física também pode refletir no aspecto emocional.
— Se a gente está se sentindo segura na parte física, ajuda a gente a se sentir segura emocionalmente também. Porque, se a gente não sabe como se defender, a gente se fragiliza também psicologicamente — avaliou.
A advogada destacou ainda que a experiência ajudou a desconstruir a ideia de que a mulher estaria sempre em desvantagem diante de um homem.
— Eu sempre aprendi que o homem é mais forte que a mulher. Então, independente do que aconteça, o homem sempre é mais forte e a mulher vai sempre apanhar. Com a aula, eu consegui perceber que não. Que a gente tem, sim, a chance de se defender — afirmou.
A técnica que mais chamou sua atenção foi justamente a de como se desvencilhar de um agressor e sair de uma posição de imobilização.
Conhecimento para situações de emergência
A coordenadora do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), Rejane Jadiscke Jesse, 30 anos, também participou da aula. Além de considerar importante a oportunidade por ser mulher e ter muitas mulheres na família, ela já havia praticado luta alguns anos atrás e tinha alguma familiaridade com o tema.
Rejane destaca que conhecer técnicas básicas pode fazer diferença quando uma situação inesperada acontece.
— Às vezes tu está numa situação de emergência, até naquela crise, puxam o braço, assim como demonstraram. Tu está na rua, tu não sabe o que pode acontecer. Então, tu tem noção de como tu pode sair de uma situação de risco — explicou.
Ela defende que atividades de orientação e defesa não sejam restritas ao período do Agosto Lilás.
— Eu acho que esses eventos não deveriam acontecer somente no Agosto Lilás. É tão importante uma mulher saber aprender a se proteger, porque, infelizmente, a questão da violência tem aumentado no nosso país, não só no nosso município, mas em todo o país — afirmou.
A coordenadora também destacou a importância de as mulheres conhecerem os serviços disponíveis para buscar ajuda. Conforme dados apresentados pela coordenadora, cerca de 50 mulheres já procuraram os serviços e denunciaram algum tipo de violência em Flores da Cunha desde janeiro até agosto deste ano. O número, segundo ela, considera casos de violência física, psicológica, moral e sexual. Há ainda mulheres que procuram atendimento em busca de auxílio, mas optam por não formalizar a denúncia. Rejane aponta que um comparativo recebido recentemente da Delegacia aponta crescimento dos diferentes tipos de violência no município desde 2021.
Informação e fortalecimento
A secretária de Desenvolvimento Social, Silvana de Carli, participou da atividade e destacou que a aula integra uma programação pensada para ampliar as ações de conscientização durante o Agosto Lilás.
— Dentro da programação do Agosto Lilás, a gente pensou em trazer outras atividades nesse sentido de as mulheres se fortalecerem. Então, essa aula de defesa pessoal vem ao encontro disso: estar preparada para alguma situação que possa ocorrer de violência e também minimamente saber se defender em uma situação dessas — explicou.
Silvana reforçou ainda a importância de divulgar a existência da rede de proteção e apoio disponível às mulheres.
— A importância é dar visibilidade para que a mulher também consiga se enxergar. Se ela está vivendo um ciclo de violência, uma situação de violência, e saber que aqui fora a gente tem uma rede de proteção, uma rede de apoio que está aqui para orientar, para auxiliar — afirmou.
A programação do Agosto Lilás em Flores da Cunha terá ainda outras atividades ao longo do mês. No dia 31, está prevista uma palestra com uma psicóloga. A programação também já contou com uma blitz no Centro, com distribuição de materiais informativos e depoimentos de mulheres que vivenciaram situações de violência e conseguiram romper com esse ciclo.

