Quem tem criança pequena em casa já se viu perguntando a outros pais por indicação de pediatra. Em Flores da Cunha, a constatação recorrente é que está faltando médicos para aquele acompanhamento rotineiro das crianças. Cada vez é maior o número de pais que precisa buscar atendimento pediátrico para seus filhos no município vizinho de Caxias do Sul.
Embora a Terra do Galo conte com outros profissionais em horários específicos e via convênios, Josianne Soustruznik Porto destaca-se como a principal referência a transitar entre as redes privada e pública do município. Ela atende no Centro de Saúde Irmã Benedita Zorzi, no Hospital Fátima (internações), em seu consultório (que está localizado dentro do hospital) e nas UTIs neonatais dos hospitais Virvi Ramos e Unimed.
A médica atua no município de Flores da Cunha há quase três décadas e revela que a escassez de especialistas é uma realidade que ultrapassa as fronteiras florenses, preocupando o Estado e o país:
— Ninguém mais está fazendo pediatria, as residências estão vazias, tem residência fechando porque não tem candidato.
Entre atendimentos no Centro de Saúde municipal e em seu consultório, Josianne atende uma média de 35 pacientes por dia — número que já chegou a ser de 50 consultas diárias.
Espera chega a três meses
Josianne destaca que além das incontáveis mensagens de WhatsApp que recebe diariamente, está sempre com agenda lotada, tanto na rede pública quanto privada, e que haveria demanda para mais três profissionais no município. Prova disso é que para agendar uma consulta de rotina com a médica, o paciente deverá aguardar pelo período de dois a três meses.
Uma alternativa para espaçar as consultas tem sido as conversas por WhatsApp, ferramenta que a médica vê com ressalvas:
— Hoje o teu espaço, a tua vida privada é muito invadida por causa do WhatsApp. Na pediatria acho que é o pior lugar. Eu tenho colegas em Caxias que abriram consultório e fecharam por causa do WhatsApp. Eles optam por ficar só com plantão, que não tem vínculo com o paciente.
Para a profissional, a escassez é reflexo da desmotivação para seguir na área pediátrica:
— A formação ficou muito longa. Eram dois ou três anos, hoje são cinco. Ou seja, demora mais cinco anos para entrar no mercado de trabalho. E também é uma faculdade cara. A conclusão é simples: “se vou ter que estudar por mais cinco anos, vou fazer outra especialidade para que seja melhor remunerada” — opina.
A médica conta que já tentou, por diversas vezes, convencer profissionais a virem trabalhar em Flores da Cunha.
— Eu já devo ter conversado com uns cinco ou seis pediatras. Eu mostro o hospital, o posto, e ofereço o meu consultório, mas ninguém tem interesse. As pessoas vão procurar onde tem uma melhor remuneração.

(Foto: Karine Bergozza)
Crianças são 17% da população
Além de Josianne, que atua no turno da manhã, o Centro de Saúde municipal também conta com o pediatra Alfredo Mazzocchi Koppe, à tarde. Embora não mantenha consultório particular no município, o profissional reforça o atendimento na rede pública local. Já no período do vespertino e noite, até às 22h, o atendimento é realizado por uma empresa terceirizada, a Bambino Gestão Pediatria, com sede em Farroupilha.
Em contato com o Círculo Saúde e a Unimed Serra Gaúcha a reportagem constatou que Josianne é a única profissional que atende pelos dois planos de saúde no município. O Círculo ainda conta com a opção do profissional Daniel Nogueira Bastos, que consulta na própria sede do plano em Flores da Cunha.
Números
Segundo o Perfil Socioeconômico 2025, a estimativa do Departamento de Economia e Estatística (DEE) em 2024 era de que haviam 5.443 crianças de 0 a 14 anos no município. O número representa 17% da população florense, estimada pelo IBGE em 2025 em 32.015.
“Não há fila de espera”
A secretária de Saúde, Jane Paula Baggio, explica que o município também conta com atendimento médico clínico geral da população infantil nas unidades da Estratégia da Saúde da Família (ESF), que funcionam integradas às Unidades Básicas de Saúde (UBSs) do município.
— O atendimento no Centro de Saúde é realizado por meio da busca espontânea, de forma presencial ou por agendamento antecipado nas consultas de puericultura. O fluxo segue os princípios da Atenção Primária à Saúde, com acolhimento inicial e posterior encaminhamento para consulta pediátrica, conforme necessidade clínica. Dessa forma, não há fila de espera — garante Jane.
No caso dos atendimentos sem agendamento, a secretária também reforça que o paciente passa por uma “classificação de risco”, na qual situações de maior urgência são priorizadas e, quando necessário, encaminhadas para atendimento médico no mesmo dia. Já nos demais casos, o atendimento é organizado conforme a disponibilidade da unidade, podendo ser orientado o retorno em outro turno ou período para melhor condução do caso.
Questionada se a quantidade de pediatras em Flores da Cunha é considerada suficiente, a secretária defende:
— A organização da rede permite atender a comunidade de forma adequada, sempre havendo uma avaliação contínua quanto à necessidade de ampliação da equipe, com o objetivo de qualificar ainda mais o acesso e a resolutividade do atendimento.

