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Falta de água expõe nova crise em Flores da Cunha

Moradores relatam falhas e Prefeitura pressiona Corsan por soluções
(Foto: Klisman Oliveira)

A falta de água voltou a fazer parte da rotina dos florenses nas últimas semanas e fez a Prefeitura solicitar “medidas mais rigorosas” contra a Corsan/Aegea. Conforme o levantamento municipal, pelo menos nove bairros relataram falhas no abastecimento. A companhia alega que os problemas estão relacionados a “intervenções operacionais recentes” e que mantém interlocução constante com a Prefeitura.

A manifestação pública do Governo Municipal ocorreu pelas redes sociais no domingo (29). Em ofício encaminhado à Agência Reguladora Intermunicipal de Saneamento (Agesan), o Município solicitou a abertura de um processo administrativo contra a Corsan/Aegea, com verificação das falhas e adoção de medidas mais rigorosas, incluindo a revisão das penalidades.

A pressão do Município também se deu de forma direta. A Corsan foi formalmente notificada a apresentar, em até 48 horas, um plano de ação detalhado, com cronograma para solução dos problemas, reforço de equipes, intensificação das manutenções e adoção de medidas emergenciais para garantir o abastecimento. Na tarde de segunda-feira (30), uma reunião ocorreu com a Corsan, que anunciou a perfuração de mais cinco poços na Terra do Galo.

Os relatos recentes de falta de água abrangem os bairros União, Videiras, São Gotardo, Pérola, Aparecida, São José, Colina de Flores, Morada do Camping e Lagoa Bela. Um número maior de bairros que em outras crises recentes no início deste ano e em 2025.

No bairro Monte Belo, o relato é que o desabastecimento já faz parte do dia a dia.

— Não passa uma semana sem ter problema de falta de água. É uma questão recorrente. Nos finais de semana, quando precisamos lavar roupa, quase sempre falta — relata Antônio de Campos, 69 anos.

No Pérola, onde parte da população não conta com caixa d’água, a situação se torna ainda mais delicada.

— Quando falta água, o que a gente vai fazer? A situação é muito crítica. A gente precisa de água pra tudo: para limpar a casa, para beber. Tem muita gente que não tem caixa d’água aqui no Pérola, e daí faz o quê? Com esse calorão que tem feito, só piora a situação — desabafa a auxiliar de limpeza Rosane de Lima, 48 anos.

Além das residências

A crise não se restringe às residências. Também atinge serviços essenciais. Na Escola Leonel Brizola, no Pérola, o impacto é direto no dia a dia de centenas de alunos.

— Como trabalhamos com crianças, está bem complicado. Nessa semana faltou só na segunda (30), mas na semana passada foi bem difícil. Teve dia em que ficamos o dia inteiro sem água. Além da gente da limpeza, as meninas da cozinha também precisam — relata Jucemara Quintanilha, 46, auxiliar de limpeza que atua há 23 anos na instituição.

— Aqui é turno integral. Juntando os dois turnos, são muitas crianças. Como que elas vão ficar sem ir ao banheiro? Eu tava olhando as redes sociais da Prefeitura e vi que pedem para registrar protocolos, mas mesmo registrando pouca coisa é resolvida — desabafa.

A insatisfação com a falta de água transborda para as redes sociais da Prefeitura. Nos comentários das recentes publicações oficiais, moradores relatam que o problema se intensificou nos últimos meses.

— Aqui nunca faltou água como neste ano. Tem dias que falta durante a semana, mas principalmente no final de semana, que mesmo com o registro todo aberto a pressão vem fraca — escreveu Sabrina Gonçalves, moradora do Monte Bérico.

Já Lucimara de Oliveira questionou a efetividade das medidas adotadas, pois “ficam só nos protocolos”. Em São Gotardo, a reclamação também é constante: “Todo santo dia falta água, interessante que já vieram tirar a leitura para efetuar o pagamento”, reclamou Ricardo Gasparini.

Crises são periódicas desde 2025

A indignação da população e o tom mais forte da Prefeitura decorrem da sequência de “crises” no abastecimento de água. O problema se tornou periódico nos últimos dois anos.

Em março de 2025, uma audiência pública na Câmara de Vereadores expôs, durante quatro horas, relatos contundentes de moradores sobre falhas no abastecimento. Dias depois, a Corsan anunciou o conserto de 62 vazamentos e considerou o problema resolvido.

A solução, contudo, se mostrou provisória. Em outubro do mesmo ano, as reclamações voltaram com força, agravando-se na virada para 2026. Em janeiro, bairros chegaram a ficar dias sem água, levando o Município a exigir um plano emergencial da companhia.

Em fevereiro, com a abertura de um novo poço na Praça Nova Trento, a Corsan chegou a afirmar que a crise estava superada. Menos de um mês depois, a realidade tratou de desafiar o diagnóstico, com as reclamações vindo de nove bairros diferentes.

Resposta da Corsan

Procurada pela reportagem, a Corsan informa que segue atuando no sistema de abastecimento de água de Flores da Cunha e mantém interlocução com a Prefeitura e com os órgãos competentes para os esclarecimentos necessários.

Segundo a companhia, as ocorrências registradas no município estão relacionadas a intervenções operacionais recentes no sistema de abastecimento, realizadas com o objetivo de manter o funcionamento da estrutura e reforçar a operação.

Entre as ações executadas estão a manutenção do poço tubular profundo localizado no Clube Esportivo e Recreativo Cruzeiro, com ampliação de vazão, e o remanejamento de um trecho de tubulação na Rua Francisco Ascari. Durante a execução desses trabalhos, houve reflexos no fornecimento de água em áreas centrais e nos bairros Monte Belo, São Pedro, São Cristóvão e Pérola 1 e 2.

Para apoiar a recuperação do sistema, a Corsan utilizou caminhões-pipa para reforçar os reservatórios e mantém acompanhamento técnico e operacional da situação. A companhia também informou que segue em tratativas com o município para avaliação de medidas necessárias, com foco na continuidade do abastecimento e na operação do sistema.

“Ninguém sabe de nada”

Além do óbvio problema que é a falta de abastecimento de água para os moradores, a comunidade de Flores da Cunha também denuncia a qualidade do atendimento prestado pela Corsan/Aegea aos clientes.

Dono do Armazém Romitti, no bairro Lagoa Bela, Clairton Romitti, 46, relata que a falta de água começou na segunda-feira (30), às 17h, e se estendeu por toda a terça-feira (31).

— O problema aumenta porque não temos um canal que o pessoal possa nos passar informações, nem um retorno sobre uma possível volta, para que as pessoas possam se programar. Na Corsan ninguém sabe de nada, tu pede para o gerente e não te responde, nos canais oficiais não temos retorno — reclama.

O comerciante detalha o impacto direto no dia a dia do seu comércio:

— Às vezes tu fica uma hora no telefone para explicar em que local falta água. Eles não conhecem a nossa cidade direito. É uma dificuldade muito grande em saber o que está acontecendo e se realmente a Corsan está a par da situação. Na semana passada, ficamos por vários dias sem água — denuncia.

Rotina afetada

No bairro Pérola, Jair Moreira, presidente do Conselho de Pais e Mestres (CPM) da Escola Leonel Brizola, comenta os impactos da falta de água sobre alunos, professores e funcionários:

— Imaginem todas essas crianças no verão e sem água? É complicado para todo mundo, para quem limpa a escola, para os professores e para os alunos, principalmente. São quase 300 crianças. A limpeza e a alimentação são sempre cobradas pelos pais. Numa casa até tu consegue se virar, mas numa escola, como fica? — questiona.

Além do impacto na instituição, Moreira descreve as dificuldades enfrentadas pelos moradores:

— A gente escuta muitos residentes aqui do Pérola e a reclamação é frequente. Às vezes, tu chega em casa e quer fazer alguma coisa, tomar um banho, lavar uma louça, e não consegue.

Ele também destaca a dificuldade de lidar com a Corsan e a falta de soluções efetivas:

— Na minha casa, enquanto morador, percebo um pouco menos porque tenho caixa d’água. Nos parece que não tem quase ninguém trabalhando para solucionar esse problema que atinge tantos bairros de Flores — conclui Moreira.

Protocole a falta de água

A Corsan reforça a divulgação de seus canais oficiais, o que também é feito pela Prefeitura de Flores que aponta que são estes registros oficiais que permitem cobranças por soluções:

  • WhatsApp: (51) 99704-6644
  • Ligação gratuita: 0800 646 6444
  • Aplicativo Corsan: Site: cliente.corsan.com.br

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