No Dia Internacional da Mulher, quando discursos costumam falar de força e superação em abstrato, a história de Glória Hensel, de 56 anos, ganha contornos concretos. Moradora de Flores da Cunha há oito anos, empreendedora e paciente oncológica, ela aprendeu que coragem não é ausência de dor.
No estúdio montado embaixo da própria casa, no Monte Bérico, a rotina mistura cera quente e conversas longas. À frente da Glória Mell Depilação Natural, ela atende mulheres enquanto também enfrenta um câncer de intestino. A serenidade com que fala sobre o assunto não apaga o peso do diagnóstico, mas evidencia a resiliência que sustenta a sua caminhada.
A base dessa força vem de muito antes.
— Desde a minha infância, eu venho de uma família muito simples. Comecei a trabalhar muito cedo. A minha mãe é a grande responsável por eu ser essa pessoa determinada. Ela sempre me ensinou, desde pequenininha, os nossos afazeres e as nossas obrigações — relembra.
A vida adulta trouxe casamento, mudanças e descobertas profissionais. O contato com pessoas, sobretudo com mulheres, deixaria de ser pontual para se tornar vocação.
— Aos 20 anos, me casei. Fiquei 23 anos casada. Nesse casamento, conheci a área de eventos e comecei a trabalhar com isso. Sempre lidei com muitas mulheres e com muita gente no geral. Me encantou muito essa questão de lidar com pessoas, de dar e receber. Depois o tempo passou, eu me separei e, nesse meio tempo, desenvolvi um desejo enorme de trabalhar mais intimamente com mulheres. Então planejei o meu trabalho, fiz muitos cursos, fui em busca de conhecimento e criei o meu estúdio que se chama Glória Mell — conta.
O nome carrega metáfora e propósito.
— Eu criei um nome com o qual as mulheres pudessem se identificar, porque a Glória Mell trabalha com depilação a base de mel. Nessa trajetória, conheci muitas mulheres e histórias. Muitas delas grávidas que acompanhei durante a gestação com o meu trabalho e hoje atendo as filhas. É um trabalho de gerações que venho desenvolvendo — diz orgulhosa.
No estúdio, o serviço vai além da estética. A escuta é parte essencial do ofício.
— Eu amo o que eu faço. Amo estar com as pessoas, amo conversar, amo ouvir. Poder dizer uma palavra faz diferença, porque quem trabalha com isso é um pouco psicóloga também. Naquela meia hora, uma hora na sala, eu preciso ser uma boa ouvinte. Preciso entender o que a pessoa está precisando, porque às vezes ela não vem só para depilar. Ela vem conversar, vem em busca de alguma coisa. Acho que vou envelhecer fazendo isso.
“Na semana em que não faço quimioterapia, sou a Glória revolucionária”
Há quatro anos, a rotina ganhou uma nova medida de tempo, os ciclos de quimioterapia. A mulher que antes se dividia entre compromissos e agendas passou a negociar com o próprio corpo.
— Há quatro anos, fui acometida por um câncer de intestino. A Glória de antes era uma pessoa que ia e vinha sem parar. A de agora tem algumas restrições, mas continua sendo aquela sonhadora, batalhadora, que às vezes esconde aquilo que está passando porque quer viver. São dias difíceis, dias que eu não posso mais controlar. Antes eu tinha controle do meu corpo, da minha vida, dos meus horários. Hoje não. Faço quimioterapia, venho para casa e fico acamada uma semana. Mal consigo comer. São idas ao banheiro, vômito… é horrível. Mas, na semana em que não faço quimio, sou aquela Glória revolucionária — relata.
Se o tratamento a derruba fisicamente, o trabalho a levanta emocionalmente.
— Nesse momento da doença, novamente precisei me reinventar. Se não fosse o meu trabalho, acho que já estaria em depressão. O meu trabalho é como ir a um posto e abastecer o carro — compara a empreendedora.
A fé, para ela, faz parte do dia a dia.
— Acredito que Deus permite que as coisas aconteçam para a gente aprender e também para ensinar. Quando alguém faz maldade, não sou eu quem vai cobrar. Cada um tem a sua conta para pagar. Muitas pessoas me perguntam: “Como é que tu consegue estar sempre sorrindo, sempre alegre? Tu teria que estar reclamando, desanimada. ” E eu respondo: carregar um fardo com alegria é muito mais leve do que carregar chorando. Eu não tenho outra escolha. Ou me jogo na cama e deixo de viver, ou digo: “Deus, amanhã é outro dia. Eu vou estar melhor. ” Então eu vou à luta.
“Flores da Cunha é a minha casa”
A mudança para Flores marcou outro recomeço. Depois de uma vida acelerada, foi na Terra do Galo que ela encontrou paz.
— Eu sou de Caxias. Faz oito anos que moro em Flores. Eu vivia numa correria. Tinha três empregos. Chegava em casa e o corpo, a adrenalina, não paravam. Quando vim morar aqui, encontrei tudo o que procurei a vida inteira. Flores me trouxe calmaria, me trouxe paz. Flores da Cunha é a minha casa. Hoje, não sairia daqui por nada — assegura.
Ela reconhece que o caminho trouxe ausências, mas insiste na descoberta de novos encontros.
— Às vezes, quando a gente fica doente, algumas amizades se afastam, algumas pessoas somem. E é nessa nova caminhada que a gente encontra pessoas que realmente fazem a diferença — completa.
É no seu estúdio no Monte Bérico e nos atendimentos mensais no Centro da cidade que ela segue construindo sua rede de apoio. No Dia da Mulher, quando tantas enfrentam batalhas no dia a dia, Glória prefere transformar a própria experiência em mensagem.
— Eu diria a essa mulher que eu sei o que ela está sentindo. Que se agarre à fé, se ancore em Deus e acredite que Ele tem um propósito na vida da gente… que nada é por acaso. Que procure redes de apoio, que não se sinta sozinha, que esteja amparada por pessoas que realmente entendam o que ela está vivendo — aconselha.
— A vida ainda tem muita coisa reservada. Tudo passa — conclui Glória.

