Na noite desta terça-feira (27) o plenário da Câmara de Vereadores de Flores da Cunha serviu de cenário para a audiência pública de apresentação do Projeto de Lei 40/2026, que propõe a denominação “Teatro Terra do Sol” e “Palco Maria Della Costa” para os espaços localizados na Casa de Cultura Flávio Luis Ferrarini.
A audiência foi proposta pela Comissão de Educação, Saúde, Agricultura, Serviços Públicos e Direitos Humanos, presidida por Diego Tonet (PP) e composta pelos também vereadores Clodomir José Rigo (PP) e Claudimir Kremer – Alemão (MDB), para ouvir as manifestações da comunidade sobre o assunto.
Na oportunidade o prefeito municipal, César Ulian, autor do projeto, explicou que a administração tinha o intuito de homenagear Maria Della Costa com o nome do teatro, mas soube que havia outro espaço com o nome da atriz em São Paulo.
–A gente sabe de todas as atribuições, inclusive legais, que envolvem uma denominação. Então a gente foi atrás, entramos em contato com o teatro de São Paulo, conversamos antes de encaminhar a proposição, entramos em contato com o teatro e eles disseram: “Não, a gente tem o domínio do nome, temos os direitos autorais e não é possível replicar um outro teatro, embora seja em outra região, com a mesma nomenclatura”.
Nesse contexto o prefeito leu o ofício enviado pela associação do espaço para Flores da Cunha, no qual sugere que outro espaço do teatro seja chamado de Maria Della Costa, como o palco. No documento também são mencionadas as possíveis confusões em relação às páginas nas redes sociais caso o nome da atriz seja utilizado para nomear o teatro.
– Nosso intuito é homenagear os dois, cada um da sua forma, respeitando todos. A homenagem dupla eu acredito que faz jus a esse teatro tão esperado aqui no nosso município e quem em março do ano que vem será entregue para toda a nossa comunidade.
Instituto defende Terra do Sol
A voluntária do Instituto Flávio Luis Ferrarini, Lilian Andrighetti, se manifestou em nome da entidade. Ela contou a história do grupo e a trajetória de vida do escritor, que teve 26 obras publicadas.
– O intuito, hoje, independentemente da denominação que for escolhida, independentemente de como isso vai acontecer, a gente tem o intuito de ter o teatro, de ter esse espaço vivo, que todas as pessoas da comunidade possam aproveitar esse espaço, terem momentos felizes com as suas famílias, com esse movimento de estar trazendo a cultura e trazendo a essa alegria para que todos estejam ali – destacou.
Ela também agradeceu a oportunidade de o Instituto ter participado como proponente da Casa da Cultura e poder compartilhar com os presentes o trabalho realizado pela entidade.
Entidades apoiam Maria Della Costa
A produtora cultural Natalina Francisconi se manifestou em nome da Associação dos Produtores de Arte e Cultura (APAC), Associação dos Amigos do Museu, comunidade de Nova Roma e Coletivo Quitérias.
– Eu quero deixar claro e registrado, que são dois momentos diferentes. O público se identifica com um ou com outro, tem mais vínculo pela questão das épocas. Nós temos Flávio Luis Ferrarini, nascido em 5 de agosto de 1961, e Maria Della Costa, nascida em 1º de janeiro de 1926. É óbvio que os públicos se dividem e algumas pessoas não conhecem Maria Della Costa – contextualizou Nata, que contou um pouco da vida da atriz natural do bairro florense de Nova Roma, que neste ano completaria um século de vida.
Na sequência a sobrinha de Maria, Débora Marchioro, ocupou a tribuna para se manifestar em nome da família. Ela defendeu que o espaço se chame Teatro Municipal Maria Della Costa, pois, dessa forma, o nome não se chocaria com o de São Paulo.
– Cada um representa uma linguagem diferente, uma linguagem artística diferente. O Flávio representa ligado à literatura, a Maria, às artes cênicas, aos palcos. Não se trata de substituir uma homenagem por outra. Homenagear dois filhos de Flores da Cunha no mesmo lugar. Homenagear Maria no teatro não retira a homenagem de Flávio Ferrarini à Casa de Cultura. Acrescenta outra camada à memória cultural de Flores da Cunha.
A voz da comunidade
Na oportunidade, o público presente também pôde se inscrever e manifestar sua opinião pelo tempo de três minutos.
A ex-vereadora Renata Zorgi Lusa lembrou que Maria dava nome ao Núcleo de Produção Audiovisual, no Parque da Vindima, mas que como o espaço foi extinto, a cidade carece de uma homenagem a Maria Della Costa.
– Eu tenho certeza que se o Flávio mesmo pudesse opinar, ele diria: “Não discutam por isso, não é queda de braço. Por favor, deem essa homenagem à Maria Della Costa e eu tenho o nome da Casa da Cultura, eu tenho o nome da Biblioteca Municipal em Nova Pádua. Ele tem várias homenagens e vai continuar tendo, porque o Instituto vai continuar florescendo, continuar contribuindo para a cultura do nosso município.
O ator e palhaço de profissão, Jânio Nunes, lembrou que no período em que Maria trabalhou no teatro muitas mulheres precisavam “se esconder atrás de roupas de homens”.
– Eu tive a sorte de nascer um homem. Mas as mulheres, na época dela, a primeira palhaça do Brasil teve que colocar roupa masculina porque ela não podia. Então se eu tenho algo como artista para recomendar para a prefeitura, é que aproveitem essa oportunidade de dar este nome para o teatro, porque isso vai fazer com que a história dela e a memória dela se perpetue.
O idealizador do CineSerra, Leandro Daros, lembrou a participação de Maria na teledramaturgia brasileira, destacando sua atuação como atriz principal na novela Beto Rockfeller, bem como papeis no teatro e em filmes.
– Eu acho que é fundamental, que quando a gente está tratando de um teatro municipal que é justamente uma seara onde a Maria foi um dos nomes mais importantes da história do teatro brasileiro, isso tem que ficar claro. Porque ela, por três décadas, entre o final da década de 1940 e final da década de 1970, foi um nome absolutamente popular no país inteiro, onde ela ia, arrastava multidões.
O jornalista Carlos Raimundo Paviani, primo de Flávio, defendeu que se o teatro não receber o nome de Terra do Sol, isso não desmerecerá a obra do escritor, que “é muito maior que um livro”.
– É fazer justiça com a Maria Della Costa. Denominamos a ela um espaço público que não conseguimos manter. E fica um alerta para o prefeito, quem sabe tenha que retomar essa ideia do Núcleo de Produção Audiovisual, onde temos o Astro, temos o festival de cinema estudantil.
A estudante Elisa Port dos Santos avaliou como muito importante e muito bonita a oportunidade de todos poderem debater essa pauta.
– Eu acredito que o Flávio Luis Ferrarini já tenha um reconhecimento devido, muito importante, muito bonito aqui no município de Flores da Cunha e acredito que nós devemos também olhar para Maria Della Costa.
O músico Jonatas Costa ocupou a tribuna representando o Instituto Flávio Luis Ferrarini. Ele falou sobre sua relação com o escritor e lembrou do fato de ele ter lhe ensinado os primeiros acordes do violão, a andar de moto e lhe incentivado a escrever.
– Por que eu defendo o nome Teatro Terra do Sol? Porque é uma coisa que fica integrada e intrínseca já ao nome da Casa da Cultura. Não que o da Maria não fique também, mas a Maria já foi homenageada grandemente lá no Teatro de São Paulo. Penso eu, que muitas são as sementes que os dois deixaram para a gente.
A advogada Camila Riva também defendeu o nome Teatro da Terra do Sol. Ela falou em nome dos familiares de Flávio que estavam presentes na ocasião.
– Por que nós defendemos o Teatro Terra do Sol? Porque é uma obra do Flávio, que é filho desta terra, assim como a Maria, e é uma obra de grande expansão e relevância, inclusive reconhecida internacionalmente. O Flávio deixou um legado muito bonito para crianças, jovens, adultos e ele nunca quis homenagens, honras, agradecimentos, mas ao mesmo tempo, por tudo que nós sabemos do Flávio e por tudo que nós conhecemos dele, se esse teatro não o homenagear, se não tiver o nome de Teatro Terra do Sol, nenhum outro vai ter.
Próximos passos
No final da audiência, o prefeito voltou a se manifestar e explicou que, dentro do olhar jurídico, mesmo que o teatro recebesse o nome de Teatro Municipal Maria Della Costa, como sugerido por algumas pessoas, não se pode desconsiderar que isso não descaracteriza um nome original perante um registro.
– E se eu tiver alguém para administrar esse teatro que não puder usar uma rede social para divulgar os espetáculos, as atrações, o que vai ter neste teatro; como vai ser? Então a gente precisa também, vereadores, levar em consideração esses aspectos. Eu sei que diante do que a gente falou aqui isso pode parecer frio, mas é real – destacou Ulian, que prosseguiu:
– Se a gente quer que o nosso teatro tenha vida e que aconteça, a gente vai precisar escancarar em todo os lugares tudo que vai acontecer ali. Então, por isso nós retiramos a primeira proposta onde, diante de uma negativa do nome Maria Della Costa, a gente homenageou somente a obra do Flávio e nós reencaminhamos homenageando os dois e dentro dos aspectos legais.
Agora o projeto está sendo analisado legalmente dentro das comissões da Câmara e os vereadores se reunirão novamente para votar o projeto. Além do voto dos vereadores vai haver um parecer jurídico sobre o tema.

