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Baixa procura por vacinas acende alerta para hesitação vacinal

Crianças, idosos e gestantes têm menor adesão em Flores da Cunha e Nova Pádua
(Foto: Prefeitura de Flores da Cunha/Divulgação)

A queda na procura pela vacina contra a gripe em diferentes regiões da Serra levou profissionais da saúde a acenderem um alerta que ultrapassa as campanhas sazonais de inverno. O cenário é visto como reflexo de um problema mais amplo: a hesitação vacinal, fenômeno que preocupa autoridades sanitárias em todo o mundo.

O Ministério da Saúde define a hesitação vacinal como o atraso ou a recusa em aceitar vacinas recomendadas, mesmo quando disponíveis. Influenciado por fatores como percepção de risco, confiança nas instituições e desinformação, o fenômeno é tratado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das dez principais ameaças à saúde global, diante do risco de redução das coberturas vacinais e reintrodução de doenças já controladas.

Os reflexos desse comportamento também são percebidos nos municípios da região. Em Flores da Cunha, a Secretaria Municipal da Saúde aponta que os menores índices de adesão à vacina contra a gripe seguem concentrados entre crianças, idosos e gestantes.

— As vacinas de rotina do Calendário Nacional de Vacinação mantêm, em sua maioria, cobertura superior a 90%. Já a vacinação contra a gripe entre os grupos prioritários está próxima de 40%. Por isso, seguimos reforçando a importância da imunização neste período de maior circulação dos vírus respiratórios — afirma a secretária de Saúde, Jane Paula Baggio.

A mudança de comportamento também é percebida em Nova Pádua. O secretário de Saúde, Diego Bernardi, aponta que a pandemia de Covid-19 ampliou a circulação de desinformação.

— Embora muitas pessoas tenham compreendido a importância das vacinas, também houve aumento da desinformação e da insegurança em relação à imunização, o que contribuiu para uma maior hesitação vacinal em algumas faixas da população — observa.

Parte da resistência à vacinação também está associada à forma como a população percebe os riscos da gripe e os efeitos da imunização.

— Entre as justificativas mais frequentes está a crença de que a vacina pode causar gripe, o entendimento equivocado de que a influenza é uma doença leve, além de medo de reações adversas e informações falsas disseminadas principalmente pelas redes sociais. Também há pessoas que deixam de se vacinar por opção ou por não se considerarem parte do grupo de risco — lista o secretário paduense.

Reflexo das redes

No Brasil, que mantém tradição em campanhas de vacinação, especialistas avaliam que a relação da população com as vacinas mudou após a pandemia de covid-19. Nas redes sociais, a circulação de informações falsas, somada à redução da percepção de risco sobre doenças respiratórias, passou a influenciar diretamente a adesão às campanhas.

O médico pediatra e 2º vice-presidente da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul, Benjamin Roitman, avalia que as plataformas digitais têm papel direto na formação dessa percepção.

— As redes sociais hoje são uma via importante de acesso à informação, mas também podem ser usadas para a desinformação. No caso das vacinas, isso aparece na disseminação de notícias irreais sobre supostos efeitos adversos.

Para o pediatra, a vacinação foi decisiva para o controle da pandemia, mas os efeitos da desinformação ainda repercutem no comportamento da população.

Novas tecnologias que ampliam a proteção

O tema ganhou espaço em eventos científicos realizados no Estado ao longo de maio. Entre os dias 21 e 23, o Congresso Gaúcho de Atualização em Pediatria discutiu os impactos da hesitação vacinal e os desafios da comunicação em saúde. Na mesma semana, o InfectoTchê 2026 reuniu especialistas para debater novas plataformas vacinais e estratégias de proteção coletiva.

Ao mesmo tempo em que campanhas de vacinação enfrentam resistência e desinformação, os avanços científicos seguem ampliando o potencial dos imunizantes. Entre as principais novidades estão as vacinas de RNA mensageiro (mRNA), tecnologia que ganhou notoriedade durante a pandemia de Covid-19 e passou a ser considerada um dos principais avanços recentes da medicina.

Diferentemente das vacinas tradicionais, que utilizam versões inativadas ou enfraquecidas de vírus, as vacinas de mRNA funcionam a partir de instruções genéticas capazes de orientar o organismo a produzir uma resposta imunológica. Na prática, isso permite maior agilidade na produção de imunizantes diante de vírus com alta capacidade de mutação.

Benjamin Roitman, destaca que a tecnologia representa uma ampliação importante das possibilidades de aplicação das vacinas, tanto na prevenção quanto em outras áreas da medicina.

— As vacinas de mRNA constituem um inegável avanço, porque permitem o desenvolvimento de imunizações para diversos patógenos e também para uso em doenças oncológicas. Além disso, por não utilizarem vírus vivo atenuado, reduzem o risco de efeitos adversos, especialmente em pacientes imunodeprimidos — explica.

Resultados e efetividade

Ensaios clínicos de fase 3 das vacinas de RNA mensageiro (mRNA) da Pfizer-BioNTech e da Moderna registraram eficácia de aproximadamente 94% a 95% na prevenção de casos sintomáticos de Covid-19. Nos mesmos estudos, a redução de hospitalizações entre vacinados foi superior a 90%, com registros próximos de zero mortes nos grupos vacinados durante o período de acompanhamento.

Novas aplicações

Além da rapidez no desenvolvimento de novas imunizações, especialistas apontam que as vacinas de mRNA também apresentam vantagens em relação à segurança para determinados grupos de pacientes. Desde então, pesquisas envolvendo o uso de RNA mensageiro avançaram também em áreas como imunizações contra diferentes vírus e estudos voltados ao tratamento de alguns tipos de câncer, como melanoma, câncer de pulmão e câncer de pâncreas.

Especialistas destacam ainda que a rapidez no desenvolvimento não significa redução de segurança, já que as vacinas continuam passando por etapas de testes clínicos e monitoramento antes da liberação para uso na população.

Para o pediatra Roitman, o enfrentamento da desinformação passa pela relação de confiança construída entre profissionais da saúde e famílias, com a orientação médica e o esclarecimento de dúvidas como estratégias centrais para ampliar a adesão às campanhas de vacinação.

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