Quando cruzou a linha de chegada da New Balance Porto Alegre e completou os 42 quilômetros da primeira maratona da carreira, João Pedro Sonda, 26 anos, não comemorou apenas a realização de um sonho. O tempo de 4h16min43s, registrado no último dia 12, simbolizou o fim de uma jornada que começou meses antes, quando uma hérnia de disco o levou à mesa de cirurgia e colocou em dúvida a possibilidade de voltar a correr. Ao concluir a prova, o paduense fechou um capítulo marcado por incertezas e superação.

(Foto: Arquivo Pessoal)
A corrida entrou na vida de João Pedro em 2020, durante a pandemia de coronavirus. Em meio ao isolamento, o paduense encontrou no esporte uma forma de cuidar da saúde física e mental. No início, contudo, a maratona parecia um objetivo distante.
— Quando a gente começa a correr, normalmente não pensa “quando vou correr uma maratona?”. A pergunta é outra: “Será que um dia vou conseguir correr uma maratona?”. É uma meta que parece muito distante — relembra o atleta amador.
Com o passar dos anos, os treinos aumentaram e a meta dos 42 quilômetros ganhou força. A escolhida inicialmente foi a Maratona de Caxias do Sul, marcada para dezembro de 2025. Meses antes da prova, porém, o diagnóstico de uma hérnia de disco mudou completamente os planos.
O médico relatou que a situação era grave, pois pressionava o nervo ciático e poderia comprometer os movimentos da perna caso não fosse tratada com urgência. A cirurgia não era uma escolha, mas sim uma necessidade.
O desafio antes da linha de largada
Para João Pedro, porém, o momento mais difícil aconteceu antes mesmo da recuperação.
— Treinar para uma maratona exige muito. Não é um glamour. Tu abre mão de tempo com as pessoas que gosta e de muitas outras coisas. Quando o médico disse que a única solução seria a cirurgia, eu fiquei muito preocupado. Não sabia o que ia acontecer dali para frente — admite.
Além da insegurança com o procedimento, o paduense precisou lidar com o pessimismo de pessoas ao seu redor.
— O que mais me abalou foram os comentários. As pessoas diziam que eu nunca mais seria o mesmo, que talvez nunca mais pudesse correr. Eu ouvia muitas histórias negativas e isso aumentava ainda mais o meu medo — admite o corredor.
Em outubro do ano passado, João Pedro passou pela cirurgia de descompressão da vértebra. Apesar da confiança na equipe médica, o paduense sempre teve o pensamento que o verdadeiro desafio começaria depois.
— A cirurgia é só uma parte da recuperação. O que determina o sucesso dela é o que acontece no pós-operatório — reforça.
Nas primeiras semanas, João Pedro seguiu rigorosamente as orientações médicas. Sem poder praticar exercícios, perdeu mais de 10 quilos e precisou recuperar força e massa muscular antes de voltar às corridas.
O recomeço
Em janeiro deste ano, João Pedro recebeu autorização para voltar a correr. Antes de aumentar a intensidade dos treinos, procurou o médico. A resposta foi simples: se conhecia o próprio corpo e se sentia seguro, poderia recomeçar.
Primeiro vieram as caminhadas e o fortalecimento muscular. Entretanto, foi o primeiro treino com foco em uma nova maratona que marcou a retomada.
— Senti muito nervosismo porque aquele treino ia dizer muito sobre como seria minha vida no esporte dali para frente. Tinha medo, mas, quando terminei, senti uma sensação de liberdade de novo. Foi ali que voltou a esperança de que poderia correr uma maratona. Voltei a correr como se fosse a primeira vez da vida — relembra Sonda.
Em março, João Pedro iniciou a preparação específica para a maratona. Vieram os treinos no frio, na chuva, de madrugada e à noite. Cada treino aproximava o paduense de uma prova que, poucos meses antes, parecia improvável.
— Deixei de lado o medo. Queria provar para mim mesmo que ainda era possível. Aprendi como o meu corpo funciona, quais são os meus limites, o que é disciplina e o que é resiliência — relata, sobre o auto-conhecimento adquirido.
A chegada que valeu mais que o tempo
No dia da prova, o objetivo principal era completar a maratona. João Pedro também tinha a meta de terminar abaixo das quatro horas, mas, nos quilômetros finais, a estratégia mudou. O relógio deixou de ser prioridade. O mais importante era cruzar a linha de chegada respeitando os próprios limites.
Agora, oficialmente maratonista, o atleta paduense já pensa nos próximos desafios. O foco será melhorar os tempos nos 5 e 10 quilômetros antes de voltar novamente aos 42 quilômetros.
Ao olhar para trás, admite que ainda está assimilando tudo o que viveu desde o diagnóstico até a conquista da primeira maratona.
— Foi tudo uma coisa atrás da outra. Estava tão determinado que não tinha parado para olhar todo o processo. Estou fazendo esse exercício agora. Eu só pensava em fazer o que precisava ser feito para conseguir — aponta.
Oficialmente, o relógio marcou 4h16min43s. No entanto, a maior vitória de João Pedro Sonda começou muito antes da linha de chegada: nasceu no dia em que decidiu que a cirurgia não seria o último capítulo da sua história como corredor.

