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Entre balcão e celular, idosos de Flores da Cunha ainda escolhem a loja

Pesquisa da Fecomércio-RS aponta que 58,2% dos gaúchos com 60 anos ou mais preferem comprar em lojas físicas; preço e confiança pesam na decisão
O contato com quem atende, além da possibilidade de olhar e experimentar, faz parte da compra presencial (Foto: Klisman Oliveira)

Antes de passar o cartão, fazer um Pix ou tirar o dinheiro da carteira, Lourdes Maria Machado gosta de analisar. Aos 67 anos, a aposentada prefere entrar na loja, experimentar o que pretende comprar e conversar com quem está atendendo. Pela internet, ainda lhe falta a segurança de saber exatamente o que está levando para casa.

— Eu ainda prefiro ir até a loja. Gosto de olhar as coisas, experimentar e conversar com quem está me vendendo. Pela internet, às vezes a gente não sabe exatamente o que está comprando. Eu tenho medo de olhar uma coisa pelo celular e depois chegar outra coisa em casa — conta.

O comportamento de Lourdes não é isolado. Uma pesquisa da Fecomércio-RS mostra que, entre os gaúchos com 60 anos ou mais, a loja física ainda ocupa um espaço central na hora de consumir. No levantamento, 58,2% afirmam preferir fazer compras em lojas do centro das cidades. A internet aparece como opção para apenas 13,8% dos entrevistados na compra de itens como vestuário, calçados e eletrônicos.

A preferência pelo presencial também aparece na forma de pagar. O dinheiro é utilizado como principal meio por 45,7% dos idosos ouvidos, à frente do cartão de crédito parcelado (27,5%), cartão de débito (24,7%) e Pix (22,9%).

A escolha entre balcão ou tela também revela o peso da confiança nessa relação de consumo. Enquanto 74,5% dizem não ser fiéis a marcas, 56,9% afirmam manter fidelidade às lojas onde costumam comprar. Preço e ofertas aparecem como os principais critérios para escolher onde comprar, citados por 65,5%, seguidos pelas promoções (31,7%), qualidade dos produtos (21,8%) e atendimento (17,4%).

É na experiência física que Lourdes encontra parte da segurança que procura. Ela usa o celular para conversar com a família e resolver tarefas do dia a dia, mas não se sente confortável para comprar pelo aparelho.

— Quando vou comprar alguma coisa, normalmente já tenho uma ideia do quanto posso gastar. Gosto de pesquisar o preço e ver se tem alguma promoção, porque hoje a gente precisa cuidar bastante do nosso dinheiro. Com a quantidade de golpes que a gente tem visto, tenho medo de clicar em alguma coisa errada ou cair em algum golpe — relata.

De olho no atendimento

A experiência de Lourdes também se aproxima do que observa Ivete Veronka, gerente da Becker de Flores da Cunha. Segundo ela, a presença de clientes mais velhos na loja não é uma novidade, mas a confiança construída com quem atende ganha importância, sobretudo quando a compra envolve valores mais altos.

— No meu ponto de vista, um dos principais motivos que levam o público mais velho à compra presencial se deve à questão de confiança com o nosso vendedor. Eles gostam de ver a mercadoria, de saber como se usa e, claro, gostam muito da atenção dada a eles no atendimento.

A experiência também muda conforme o valor da compra. Para a gerente, é nesses momentos que a relação construída com quem está atendendo ganha ainda mais importância.

— Essa questão da confiança no vendedor se dá principalmente para as compras de valor maior e a gente observa que o público mais velho se sente mais seguro mesmo.

“A loja acaba virando uma referência para mim”

José Maria Rosa, 68 anos, também prefere o caminho até a loja. Aposentado, ele costuma pesquisar antes de comprar e comparar os preços, mas a preocupação vai além de encontrar a melhor oferta. É uma forma de manter o controle sobre quanto pode gastar.

— O preço pesa bastante. Antes de comprar, eu costumo pesquisar e comparar em vários lugares, porque às vezes a diferença de uma loja para outra é grande.

A preocupação com o preço de Rosa também aparece nos resultados da pesquisa. Entre os idosos entrevistados pela Fecomércio-RS, preço e ofertas são os fatores mais citados na definição de onde comprar, à frente de promoções, qualidade e atendimento.

O levantamento mostra que, para 82,3% das pessoas mais velhas, ir às compras é principalmente uma atividade funcional, ligada à necessidade de adquirir produtos essenciais. Apenas 11,2% associam o momento ao lazer e 6,5% à oportunidade de interação social.

Rosa se encaixa nesse perfil. Para ele, comprar não é necessariamente uma programação. É resolver o que precisa, mas sem abrir mão de alguns hábitos que considera importantes.

— Comprar não é um passeio. Quando preciso de alguma coisa, vou até a loja, compro e volto para casa. Mas se o atendimento for bom e o preço for justo, aquela loja acaba virando uma referência para mim — explica.

É uma relação que ajuda a explicar outro dado da pesquisa; a fidelidade desse consumidor está mais ligada ao estabelecimento do que à marca estampada no produto. O ambiente, a organização, o atendimento, a variedade e o preço passam a fazer parte da escolha.

Na Becker, Ivete observa comportamento semelhante entre os clientes mais velhos.

— Esse público geralmente usa dinheiro ou a opção de boleto que temos para pagamento. E geralmente eles tomam a decisão de compra sempre com o aval de filhos ou cônjuge.

E, mesmo sem abandonar completamente as novas formas de pagamento, Rosa mantém algumas preferências.

— Pix eu até uso, mas ainda gosto bastante do dinheiro e do cartão. No dinheiro, principalmente, consigo ter uma noção maior de quanto estou gastando.

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