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Queda nos registros de violência contra a mulher acende alerta para a subnotificação em Flores da Cunha

Apesar da redução, delegada alerta que os números não revelam toda a realidade da violência doméstica
Delegada Carla Zanetti encoraja as vítimas a registrarem (Foto: Nadine Dilkin)

O mês vai chegando ao fim e vale a pergunta: a campanha de Agosto Lilás alcançou você? A conscientização e o enfrentamento da violência contra a mulher ainda são um desafio que supera até as estatísticas. Em números, 2026 traz uma notícia positiva: Flores da Cunha registra, entre janeiro e julho, os menores índices de ameaça e lesão corporal dos últimos cinco anos. Ainda assim, há um alerta sobre o que os números não mostram: a subnotificação.

Neste ano, foram registradas 29 ocorrências de ameaça e 17 de lesão corporal — os menores números da série desde 2022. O cenário, porém, não é uniforme: Flores da Cunha teve uma tentativa de feminicídio e cinco registros de estupro, contra nenhum estupro no mesmo período de 2025.

À frente da Delegacia de Flores da Cunha desde maio, a delegada Carla Zanetti faz um alerta: a redução nas estatísticas não significa necessariamente que a violência tenha diminuído.

— Estamos tendo uma atenção maior nesses casos, principalmente de feminicídios — explica a delegada, citando a mobilização estadual diante dos 42 assassinatos de mulheres registrados no Rio Grande do Sul até final de julho.

O alerta da delegada é baseado em números. No ano passado, 95% das 80 mulheres vítimas de feminicídio no Estado não tinham medida protetiva na data do crime, enquanto 75% nunca haviam feito um registro anterior de violência.

— Muitas mulheres acreditam que não vai chegar nesse ponto de ter o feminicídio e esse é o grande erro — alerta a delegada de Flores da Cunha.

Além dos números

Os dados da Secretaria Estadual da Segurança Pública (SSP) são importantes, mas não podem ser interpretados isoladamente. A delegada explica que os registros podem ser atualizados conforme as investigações avançam. O principal problema, contudo, está justamente naquilo que não chega às estatísticas: as mulheres que não procuram a delegacia para registrar a violência que sofrem.

— Não se pode confiar nesses números porque tem as subnotificações. Temos situações em que as mulheres ainda não criaram coragem de procurar a delegacia ou fazer algum movimento de rompimento da violência doméstica — lamenta a delegada.

Outro fator que dificulta a identificação dos casos é a própria natureza da violência doméstica. Segundo a delegada, muitas vezes a vítima chega à delegacia fragilizada por uma violência psicológica que não foi reconhecida.

— O autor da violência doméstica defere no psicológico, e, às vezes, é uma violência invisível. Nem a vítima percebe. Faz com que ela se sinta impotente e incapaz de denunciar — explica.

Medida protetiva

A delegada Carla Zanetti reforça a importância da medida protetiva para mulheres que estão em situação de violência. O descumprimento destas ordens judiciais deve ser comunicado às autoridades para que novas providências possam ser adotadas.

— É importante que ela (vítima) nos notifique, que ela nos noticie esses descumprimentos. Porque por vezes a medida protetiva basta para aquele agressor, ele cumpre a decisão judicial, mas por vezes pode acontecer que não. É importante ela notificar, para que a gente possa adotar medidas mais duras com relação a esse agressor e fazer cessar — esclarece a delegada.

Como pedir ajuda?

Para mulheres que ainda não se sentem preparadas para procurar diretamente a delegacia, a orientação é buscar outros serviços da rede de proteção a mulher. Em Flores da Cunha, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) integra essa rede e pode auxiliar no acolhimento das vítimas.

A coordenadora Rejane Jadischke Jesse conta que, atualmente, a rede atende 55 mulheres e que 90% delas são vítimas de violência doméstica.

— O CREAS trabalha com qualquer violação de direito. Temos as acolhidas mensais, não são específicas para mulheres, mas hoje o público 90% é de mulheres que sofreram alguma violência — explica.

O CREAS auxilia a mulher em momentos de ajuda, desde como fazer a denúncia até o momento de recomeçar a vida sozinha, com acompanhamentos com equipe qualificada para o atendimento.

— Às vezes a mulher não tem coragem de denunciar e busca o CREAS, principalmente com pelo medo da reação do agressor após ser notificado. O CREAS possui duas psicólogas, uma assistente social e uma educadora social, que acompanha essas mulheres — complementa.

Além dos serviços no município, existe a opção de registrar a ocorrência online ou ligar para o Disque 180.

— Tem a possibilidade de fazer uma denúncia anônima no Disque 180. A pessoa não precisa se identificar, só que tem que dar elementos mínimos para que a gente possa achar essa pessoa. O nome completo, telefone, endereço. Pelo menos um desses — conclui a delegada.

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