O júri sobre o acidente que matou dois adolescentes em Flores da Cunha foi adiado pela sexta vez. O caso, ocorrido em 2009, está pronto para julgamento desde 2022, mas vem sendo remarcado por diferentes motivos. Nesta semana, a sessão estava prevista para quinta-feira (19), porém foi cancelada na quarta-feira (18) devido a um quadro de conjuntivite aguda de um dos advogados da defesa. A nova data foi marcada para a próxima quinta-feira (26), às 8h30min, no Fórum de Flores da Cunha.
O pedido de adiamento foi feito pelo advogado Gilson Luis Paschoal, representante do acusado João Paulo Guerra, que apresentou atestado médico com recomendação de afastamento de suas atividades por sete dias.
A minha irmã deixou um vazio imenso
Para quem sobreviveu, o passado não está distante. Ele retorna em fragmentos. Bruna Mocelin Machado, 30, irmã de Mairin, revive aquele trágico domingo em imagens que nunca desapareceram completamente da memória.
— Naquele dia, estávamos na Praça da Bandeira tomando sorvete e voltamos para casa a pé. Estava tudo tranquilo, a gente se divertiu, conversou, deu risada. E, do momento do acidente, eu lembro de estar ajoelhada no chão, amarrando o tênis… Foi um estouro e um puxão no ombro. Depois, não lembro mais nada. Tudo apagou — relembra.
O acidente ocorreu na noite de 26 de abril de 2009. Bruna, a irmã e o namorado da irmã, Gionei do Amaral, caminhavam pela calçada quando foram atingidos por um carro que saiu da pista. Mairin e Gionei não resistiram aos ferimentos. Bruna foi socorrida.
— No hospital, eu pedia para a minha madrinha, que só respondia: “não te mexe muito, que tu tá com ponto, tu tá quebrada, teus ossos do lado esquerdo estão todos quebrados”. Lembro que o médico tentou disfarçar, para não me contarem que a minha irmã e o Gionei tinham morrido — relembra Bruna.
A confirmação da tragédia veio de forma indireta.
— Com o passar dos dias, eu questionando, perguntando por eles, a minha mãe chegou com o jornal para me contar que eles haviam falecido. Me custava acreditar — conta.
O luto não foi imediato. E, quase 17 anos depois, ainda não se completou.
— Levei dois anos e meio para conseguir entrar no cemitério onde a minha irmã e o Gionei estão enterrados. E mais um ano e meio para poder chorar. Porque eu não acreditava, não conseguia.
Bruna conta que a vida seguiu, mas com uma ausência constante.
— A minha irmã deixou um vazio imenso. Não só na minha vida, mas na vida de toda a minha família. E toda vez que eles fazem isso (adiam o julgamento), parece que esse vazio só aumenta. Quero pôr um ponto final nessa história. São quase 17 anos de sofrimento. Porque dói muito saber que ela não conheceu o sobrinho dela. Ela não conseguiu se tornar a médica que ela queria ser.
Neste últimos quatro anos, as intimações para o júri passaram a funcionar como gatilhos emocionais.
— Sempre que recebo sobre um novo júri, tudo começa a passar na minha cabeça de novo, todas as lembranças. E cada vez que o júri é adiado é uma sensação de frustração. Sobre esse último adiamento, honestamente já estava esperando. Quando eu fui intimada, falei para o meu esposo: “Eu não tenho esperança nenhuma que vai acontecer” — infelizmente, o presságio se tornou realidade e o sentimento de impotência e injustiça aumenta.
Relembre o caso:
- O acidente ocorreu em 26 de abril de 2009, quando ambos os motoristas envolvidos foram presos em flagrante. Na ocasião, o acusado João Paulo pagou a fiança e teve concedida a liberdade, enquanto a prisão de Maicon Antônio foi convertida em preventiva. Na investigação policial, o réu João Paulo Guerra também teve a prisão preventiva decretada.
- A denúncia do Ministério Público foi recebida em 12 de junho de 2009.
- A liberdade provisória dos acusados foi concedida em 27 de agosto de 2009.
- No processo, foram realizadas quatro audiências para inquirição das testemunhas e interrogatório dos réus. A defesa de Maicon Antônio arrolou sete testemunhas e requereu a intimação dos peritos em plenário.
- Em 29 de novembro de 2022, o juiz Daniel da Silva Luz encerrou a fase de instrução e marcou o Tribunal do Júri para o dia 14 de setembro de 2023.
Em 13 de setembro de 2023, o julgamento foi redesignado para 23 de novembro de 2023 após petição da defesa de Maicon Castilhos. - Marcado para o dia 23 de novembro de 2023, o júri foi cancelado três dias antes em razão de o município estar em estado de emergência e haver previsão de novos temporais.
- O julgamento foi designado para o dia 16 de maio de 2024, mas acabou cancelado por uma decisão estadual de suspensão de audiências diante das consequências dos temporais que atingiram o Rio Grande do Sul.
- A nova data foi marcada para 28 de novembro de 2024, contudo foi novamente cancelada nove dias antes diante da notícia da impossibilidade de comparecimento de dois peritos que seriam testemunhas da defesa de Maicon Antônio — posteriormente a defesa desistiu da oitiva de um desses peritos.
- O julgamento foi remarcado para o dia 8 de maio de 2025, mas foi redesignado menos de 15 dias depois, com nova data para 15 de maio de 2025. Contudo, o júri não ocorreu por um pedido da defesa de Maicon Antônio, que apresentou um laudo médico apontando que o réu estava acometido de gastroenterite infecciosa.
- Em 24 de julho de 2025, a sessão foi redesignada para o dia 19 de março de 2026.
- No dia 17 de março de 2026, o júri foi cancelado em razão de uma conjuntivite do advogado do réu João Paulo Guerra. O plenário foi transferido para semana seguinte, no dia 26 de março.

