Flores da Cunha sediou, nesta quarta-feira (30), o lançamento do Sistema Antigranizo para a Serra, projeto que reúne municípios, Governo do Estado, Sicredi Serrana e setor produtivo para reduzir os impactos do granizo na região. Com investimento previsto de mais de R$ 8 milhões da Sicredi Serrana, os equipamentos deverão estar instalados e operando entre o final de maio e junho de 2027.
O ponto de partida do cronograma é a publicação do edital estadual, no dia 4 de setembro, durante a Expointer. Agora, está em andamento o prazo de 60 dias para os municípios se habilitarem no projeto, com prazo final em 3 de novembro. Depois de prazos de análise de documentação, a lista final dos municípios contemplados deve sair entre 8 e 10 de dezembro.
Está previsto para janeiro de 2027 a compra dos geradores que liberam iodeto de prata na atmosfera para reduzir a formação de granizo nas nuvens. A compra será feita pela Sicredi Serrana junto a empresa responsável. A estimativa atual é de cerca de 150 equipamentos para atender os 19 municípios que já sinalizaram interesse na adesão.
O número, porém, ainda pode aumentar. Segundo o diretor de Negócios da cooperativa, Odair Dalagasperina, o total pode chegar a 25 municípios aptos a participar do projeto, desde que atendam aos critérios do edital, entre eles a produção de uva.
Em paralelo, a partir de 1º de março, técnicos percorrerão a região durante 30 dias para mapear os pontos de instalação, avaliando acesso, relevo e comunicação com o sistema. Com a chegada dos equipamentos, em abril de 2027, começa a instalação, estimada em cerca de 60 dias úteis.
Um detalhe importante é que a compra só será feita pela Sicredi depois que cada município tiver aprovado sua lei orçamentária garantindo o custeio da manutenção. Por isso, o evento desta quarta-feira, na Vinícola Luiz Argenta, serviu para orientar gestores públicos, vereadores e equipes municipais sobre como se adequarem a legislação necessária.
Quem paga o quê
O modelo foi desenhado a várias mãos. A Sicredi assume o investimento para a implantação do sistema. A manutenção anual fica com as prefeituras, com apoio estadual. O Governo do Estado vai aportar pouco mais de R$ 3 milhões por ano a partir de 2027, cerca de R$ 15 milhões em cinco anos, com recursos do Fundovitis. Isso deve cobrir entre 20% e 30% do custo anual de manutenção. O valor repassado a cada município será calculado com peso de 60% para a área de produção e 40% para indicadores de produção de uva.
O custo de manutenção é fixo, independentemente de quantas vezes os geradores forem acionados ao longo do ano. O prefeito de Flores da Cunha, César Ulian, ressaltou que os municípios da Serra que participam desta luta pelo Sistema Antigranizo, há mais de dois anos, já conhecem o valor que terão de desembolsar e estão incluindo-o em seus orçamentos.
O secretário estadual da Agricultura, Márcio Madalena, garantiu que a iniciativa não ficará restrita a uma gestão:
— Isso aqui vai virar política pública. Nos próximos meses vocês vão perceber que isso estará nas ações da Emater e da Secretaria da Agricultura.
Uma rede sem “furos”
Hoje, 19 municípios da Serra e do Vale do Caí já demonstraram interesse e compõem a área prevista no edital. Este número pode ser ampliado para 25 municípios, segundo a Sicredi. Este grupo forma uma rede contínua, condição essencial para o funcionamento desta área de proteção criada pelo sistema — por isso a importância de todos municípios aderirem.
— Esse sistema só funciona se tivermos todo um perímetro cobrindo. O vento um dia vem daqui, um dia vem dali. Precisamos, neste momento, da união de todos os municípios — alertou o prefeito de Flores da Cunha, César Ulian.
“Nada é pior do que ter que reconstruir”
Prefeito anfitrião, Ulian afirmou que Flores da Cunha não teve, nos últimos seis anos, um ano “normal” do ponto de vista climático. Ele citou a tempestade de granizo de 2023, a enchente histórica de 2024, o tornado em Alfredo Chaves em 2025 e a chuva recorde do último 21 de setembro como exemplos de fenômenos que causaram prejuízos.
— Nada é pior do que ter que reconstruir. E não é reconstruir só a obra, é reconstruir histórias de famílias inteiras, é reconstruir parreirais. Não é só o prejuízo daquele ano, é o prejuízo de, no mínimo, três anos para recuperar aquela videira — afirmou.
O prefeito agradeceu à Sicredi, que, segundo ele, “tomou uma atitude de Estado” ao financiar a implantação. Ulian destacou, ainda, o impacto desta iniciativa no turismo:
— O turista, quando vê a notícia de que o município está em situação de emergência por granizo, repensa o destino. O turista quer se sentir seguro.
Sem promessa de 100%
Durante as perguntas, João Rolim, meteorologista da AGF Antigranizo, de Fraiburgo (SC), região onde o sistema opera há mais de 30 anos, foi direto ao tratar da eficiência:
— Não existe no mundo nenhum método que seja 100%. Quem disser que não vai dar granizo está mentindo.
Segundo ele, o sistema reduz sensivelmente a incidência e a intensidade das pedras, com eficiência estimada entre 60% e 80%. A eficácia é maior quanto mais próximo do centro deste perímetro de proteção, por isso a importância de mais municípios aderirem.
Monitoramento ambiental
Diante das dúvidas e informações que circularam nas redes sociais após o lançamento do edital, os organizadores reforçaram que há anuência da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e da Fepam. Por isso, as prefeituras não precisam de licenciamento para os equipamentos. Madalena anunciou que o Estado fará acompanhamento técnico nas propriedades para medir possíveis resíduos de iodeto de prata.
— Não basta não ter o problema, nós temos que comprovar que não temos esse problema. Não cairemos em armadilhas que possam questionar a qualidade do nosso produto — declarou o secretário.
Cronograma
- 3 de novembro — prazo para adesão dos municípios ao edital estadual
- Novembro — análise da documentação pelo Estado
- Até 10 de dezembro — previsão de definição dos municípios habilitados
- Janeiro de 2027 — aquisição dos equipamentos
- Março — mapeamento dos locais de instalação
- Abril — previsão de chegada dos geradores
- Junho de 2027 — previsão de conclusão da instalação e início da operação
Como funciona o antigranizo
Geradores, não canhões — O sistema usa geradores instalados no solo, que não fazem barulho. Eles queimam iodeto de prata, que, como fumaça sem cor, leva partículas pelas correntes de ar até as nuvens.
Como age — O granizo se forma no alto da atmosfera. O iodeto de prata sobe até lá e compete com os núcleos de formação das pedras de gelo, fazendo com que a precipitação caia como um granizo de menor tamanho ou até água, evitando prejuízos. Segundo o secretário, não há comprovação de que o sistema aumente o volume de chuva, apenas dissipe o granizo já em andamento.
Não fica ligado o tempo todo — O sistema é automático e orientado por um radar meteorológico. Todas as manhãs são feitas radiossondagens da atmosfera para identificar se há condições de formação de granizo. Os geradores só são acionados quando há previsão.
Experiência vizinha — Em Santa Catarina, o sistema opera há mais de 30 anos. O metereologista João Rolim relatou que, diante da eficácia do sistema, uma das maiores produtoras de maçã do Estado abriu mão das telas e de parte do seguro rural para subsidiar geradores próximos às suas propriedades.

