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Palavra Viva: Inverno

Confira a crônica escrita por Maria de Lurdes Rech na edição Nº 1881 do jornal O Florense

Falar de inverno é antagônico. Se, por um lado, dispomos das belezas e peculiaridades da estação, das lareiras, taças de vinho e do chocolate quente, por outro, é um momento em que é impossível permanecer insensível diante da necessidade dos outros.

Sou convicta de que, na caixa dos sentimentos, há espaço para a solidariedade e até para sentir culpa ao desfrutar do conforto e ignorar o fato de que há gente sem agasalhos e com alimentação precária, pessoas com baixa remuneração e, obviamente, sem uma sopa de legumes com carne e frutas sobre pratos semivazios.

Felizmente, há campanhas promovidas por entidades públicas e privadas, clubes de serviço e voluntários envolvidos na causa. O importante é amenizar o sofrimento causado pela falta de roupas, cobertores e comida.

Cada um de nós pode olhar para o lado, para a frente, para as ruas e calçadas e perceber se alguém está precisando de ajuda, suprindo essa necessidade de imediato ou encaminhando essa pessoa a entidades de apoio, pois nem sempre ela vai em busca de auxílio. A atitude deve prevalecer no aqui e agora. Alguns veem e não enxergam, outros apenas querem e não fazem, mas há aqueles que ao perceber, executam com excelência.

Assim, de fio a fio, em forma de trama para novos desafios, cabe-nos amenizar os sofrimentos característicos do inverno. Portanto, doe, mobilize quem está ao seu redor, participe de campanhas. Corresponda e responda aos chamados. Aqui não se trata de caridade, mas de bom senso e consciência. Todos merecem cuidados e aconchego.

Pelo excesso de dias acinzentados e pela reclusão, o estado de ânimo das pessoas também é afetado. Então, convidar alguém para tomar um café com quitutes feitos à mão é sempre um ato de bom gosto e delicadeza. É aprazível acolher amigos por afinidade, abraçar apertado e aquecer conversas, em especial aquelas guardadas e esquecidas nas gavetas dos próprios baús. O inverno pode combinar com coisas aprazíveis, além dos cachecóis enrolados ao pescoço; ou seja, também com tudo o que venha a entrelaçar e aquecer os frios internos.

Assim a vida se constitui, semelhante à natureza, feita de estações, de tempos que não modificam os percursos, apenas exigem que se atravesse pontes e riachos de águas turvas com determinação para, então, afirmar: “Eu consegui. Superei. O frio mais intenso passou.”

Que brotem os verdes nas florestas, nos campos e nas cidades. Logo haverá outra primavera com aroma de flores. Por enquanto, seguimos de frio em frio pelos quatro cantos deste estado pra lá de guapo, com as lãs, as mesclas, o chimarrão e as peraltices da natureza fazendo seu charme no período invernal.

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