A percepção sobre o cigarro mudou drasticamente nas últimas décadas. Atualmente, parar de fumar é visto como um gesto de cuidado com a própria saúde, e não mais como uma simples escolha pessoal. No Brasil, cerca de 9,3% da população adulta ainda fuma, o que representa aproximadamente 19,6 milhões de pessoas, segundo dados do Ministério da Saúde deste ano. O hábito é mais frequente entre homens (11,7%) do que entre as mulheres (7,2%).
Todos os anos, no dia 29 de agosto, é celebrado o Dia Nacional de Combate ao Fumo, criado em 1986 para conscientizar a população sobre os riscos do tabagismo. Os números impressionam: o cigarro é responsável por cerca de 200 mil mortes anuais no país e mais de 8 milhões no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Entre essas vítimas estão 1,2 milhão de não fumantes expostos à fumaça passivamente. Além disso, o cigarro está diretamente relacionado a 90% dos casos de câncer de pulmão, 85% das mortes por doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e 25% dos episódios de infarto e derrame, segundo o Hospital do Coração (HCor).
Além dos números alarmantes, o tabagismo representa um desafio tanto para os sistemas de saúde quanto para as pessoas que desejam abandonar o vício. Parar de fumar não é apenas uma decisão de vontade: envolve questões físicas, emocionais e sociais que dificultam o processo.
— O desafio é duplo: clínico e de saúde pública. Do ponto de vista clínico, muitos fumantes têm dificuldade por causa da dependência química. O cigarro provoca doenças graves como doenças cardíacovasculares e respiratórias, que muitas vezes são detectadas tardiamente. Na saúde pública precisamos evitar que os jovens comecem a fumar, com campanhas educativas. É essencial que todos tenham acesso a programas de ajuda para largar o cigarro e precisamos manter as políticas de ambientes livres de fumo e aumento de impostos sobre o tabaco — explica a pneumologista Flávia Pauleski.
Em Flores da Cunha, o Centro de Saúde Irmã Benedita Zorzi está com inscrições abertas para o grupo de apoio contra o tabagismo, com encontros semanais que oferecem orientação, acompanhamento clínico e estratégias para lidar com a dependência. A farmacêutica Lívia Soldatelli Oliboni, coordenadora do Programa, lembra que o serviço tem mais de uma década de história:
— Em 2013, uma equipe da Secretaria de Saúde de Flores da Cunha recebeu treinamento do INCA (Instituto Nacional do Câncer) para atender fumantes e ajudar na chamada “cessação tabágica”. Durante a pandemia, muitas dessas ações ficaram em segundo plano, mas, em 2022, conseguimos reorganizar e fortalecer o atendimento ao tabagista, criando um Protocolo Municipal de Apoio — conta.
A experiência acumulada ao longo dos anos faz a equipe compreender melhor os mecanismos que mantêm o vício e dificultam a interrupção do consumo. Lívia explica que a resposta do cérebro à nicotina é um dos principais fatores que sustentam a dependência.
— Quando a pessoa dá uma tragada, a nicotina chega ao cérebro em segundos e se liga a receptores nos neurônios. Isso faz o cérebro liberar substâncias que causam prazer, bem-estar, diminuição da ansiedade, melhora da memória, concentração e até redução do apetite. No começo, a pessoa fuma pouco, mas com o tempo precisa de mais cigarros para sentir o mesmo efeito. É o que chamamos de tolerância. Em média, quem fuma um maço por dia (20 cigarros) dá cerca de 200 tragadas diárias, ou seja, 200 vezes por dia a nicotina atinge o cérebro.
Muitos fumantes adiam a decisão de procurar ajuda por considerarem impossível mudar seus hábitos. As especialistas contrapõem esse pensamento.
— O processo de cessação tabágica ocorre de forma estruturada, pois envolve dependência física, psicológica e comportamental. Na prática, combina estratégias medicamentosas e não medicamentosas, como atividade física, meditação e técnicas de relaxamento. O apoio psicológico, individual ou em grupo, aumenta a chance de sucesso — finaliza a pneumologista Flávia.
“A vida é muito melhor sem cigarro”
Moradora da comunidade de Sete de Setembro, Mara Lúcia da Silva, 45 anos, parou de fumar há dois anos e meio. Ela participou do grupo de apoio florense e relembra como decidiu parar de fumar.
— Eu fui consultar para fazer os exames de rotina e não deu muito bom o raio-X do pulmão. Mostrei para o médico e ele disse que eu tinha que parar de fumar. Coloquei na minha cabeça que ia parar, mas sem ajuda não conseguiria. Foi aí que me inscrevi no grupo — conta.
A ex-fumante lembra que os primeiros dias foram os mais desafiadores. A abstinência e a vontade constante de fumar exigiram força de vontade e apoio da família:
— Minha maior dificuldade foi a abstinência. A vontade de fumar vinha com frequência nos primeiros dias, mas fui levando. Coloquei na minha cabeça que não podia pensar em cigarro e precisava fazer outras coisas. Precisei da ajuda das pessoas de casa; meu marido ainda fumava, mas começou a fumar longe de mim. Hoje em dia, eu tenho nojo de cigarro — relata.
Com o tempo, Mara percebeu mudanças significativas na sua saúde e bem-estar, que reforçaram a decisão de manter-se longe do cigarro:
— Desde que parei de fumar, minha vida é outra. Antes eu tinha muita tosse, dor nas costas, e hoje não tenho mais nada. Minha vida é maravilhosa sem o cigarro — afirma.
Além dos benefícios físicos, ela também sentiu uma melhora sensível no paladar e no prazer das refeições, algo que antes o cigarro prejudicava. E é com um conselho que Mara resume o aprendizado da sua trajetória:
— O paladar mudou muito, toda a comida tem sabor. Antes, eu não sentia direito o gosto das coisas. Eu aconselho as pessoas que querem parar de fumar a procurarem o grupo de tabagismo, que é o melhor lugar. Eu digo a todos que queiram parar: vá em frente, porque a vida é muito melhor sem cigarro.

