Os idosos estão cada vez mais conectados

Por Camila Baggio – Camila@jornaloflorense.com.br | 28 de Outubro de 2017 às 09:48

Terceira idade, que soma 15% da população de Flores da Cunha, deixa o tricô de lado para descobrir o mundo online

Com uma população cada vez mais idosa, não é possível limitar-se apenas à prevenção de doenças, mas é necessário preocupar-se em dar ao idoso qualidade de vida. É pensando nisso que desde o início de outubro Flores da Cunha realiza o Mês do Idoso, neste ano com o lema Envelhecer é pura poesia: até o sorriso fica entre aspas. Instituído por lei no ano passado, esta é a segunda edição da programação que dura o mês inteiro e visa proporcionar atividades diferentes e do interesse dos idosos. São palestras, aulas com exercícios físicos, missa, show de talentos, baile e almoço comemorativo. “O objetivo é promover a qualidade de vida dos idosos, gerando saúde mental e física e proporcionando atividades que os tirem de suas casas e rotinas”, indica a coordenadora do Centro de Referência de Assistência Social (Cras), Danielle Izé Balsemão Valentini.

No dia 18, os idosos participaram de uma palestra sobre mídias sociais na terceira idade, ministrada pela acadêmica em Jornalismo Naira Albuquerque. Pode parecer simples, mas ao utilizar as novas tecnologias, como computador e smartphone, os usuários podem conquistar mais autonomia, mantendo a mente ativa, como é o exemplo da aposentada Idalina Mascarello, 71 anos, integrante do projeto Conviver. Ela fez curso de informática e aprendeu a usar o computador ainda quando os emails eram mais utilizados para conversas. “Depois surgiu o Facebook e então eu comecei a usar. Costumo compartilhar assuntos bons e positivos, conversar com minhas irmãs que moram em São Marcos e ler. Apesar de que na leitura eu ainda prefiro os livros”, brinca Idalina, que resolveu não ter o aplicativo de mensagens WhatsApp. “Acho que as pessoas perdem muito tempo com isso, eu gosto de usar o celular para ligar para as pessoas”, admite.

Ao contrário dela, a doméstica Maria Luiza Mascarello Pauletti, 66 anos, usa e muito o celular para mensagens e chamadas de vídeo. Isso porque a filha dela mora há mais de 10 anos nos Estados Unidos e a pequena tela se tornou uma prática ferramenta de comunicação entre elas. “Aprendi sozinha a usar e ajudou muito para conversar com a minha filha. Nos contamos tudo, ela me mostra o cachorro e eu falo das novidades daqui. No início eu comprei um celular qualquer, depois já troquei por um melhor e agora já estou de olho em outro mais moderno. É bom termos esse passatempo”, admite Maria Luiza, que também participa dos encontros do Conviver.

Perfil

O uso dessas mídias por brasileiros com 60 anos ou mais ainda esbarra em fatores socioeconômicos, mas apresenta tendência de crescimento. De 2008 a 2013, o percentual de idosos que acessam a internet passou de 5,7% para 12,6%, ou seja, mais do que dobrou, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Junto a esse avanço, estudos mostram que a rotina conectada traz benefícios à saúde, como a prevenção de doenças como o mal de Alzheimer e a solidão.

Engana-se ainda quem pensa que no interior o acesso à Internet é um dificultador. Os agricultores, mesmo aqueles acima dos 60 anos, também estão cada vez mais digitais e Julieta Orso Reginato, 66 anos, é uma dessas internautas. Ela gosta de compartilhar nas redes sociais fotos de encontros da família, de amigos, e inclusive das produções agrícolas do Travessão Alfredo Chaves, onde mora, como a de uva. “Quando a safra está bonita sempre coloco fotos das uvas. É uma maneira de mostrar nosso trabalho para os amigos e familiares que moram mais longe”, conta. Há um ano Julieta fez um curso de computação por meio do Cras – ela integra o projeto Semear, e desde então vem despertando também o interesse do marido Angelo Reginato, 73 anos. “Ele gosta de ver vídeos comigo e está aprendendo a mexer no celular. Sempre temos dúvidas, então, pedimos para nossa neta Isabela, de 12 anos, que sempre nos ajuda”, explica.

 

População está mais velha

O povo brasileiro está envelhecendo em ritmo acelerado. De acordo com uma publicaçãivulgada em 2016 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população idosa vai triplicar em 40 anos no país e passará de 19,6 milhões em 2010 para 66,5 milhões em 2050. As estimativas são de que a virada no perfil da população ocorra em 2030, quando o número absoluto e o percentual de brasileiros com 60 anos ou mais de idade vão ultrapassar o de crianças de até 14 anos. Esse crescimento não é diferente em Flores da Cunha. De acordo com os últimos números do IBGE e da Fundação de Economia e Estatística (FEE-RS), os florenses com mais de 60 anos somam os 4.474 habitantes, ou seja, 15% da população. Em comparação com 2015, o número de idosos teve um crescimento superior a 3% em um ano – 160 pessoas a mais. Os dados são de 2016 e revelam que nos últimos cinco anos a população idosa aumentou em quase 20% no município.

Desse contingente, as mulheres são maioria. Em 2016, eram 2.041 homens para 2.433 mulheres. Além de estarem em maior número, elas também vivem mais. Entre as pessoas com mais de 80 anos, há 333 mulheres para 190 homens. Na contramão desses números e seguindo a tendência nacional, a população até 14 anos vem diminuindo no município. Em 2000, eram 5.548, hoje são 5.131 habitantes de zero a 14 anos. As explicações são claras: a redução do número de filhos por mulher se acentuou de forma rápida nos anos de 1980, enquanto que a tecnologia em saúde se desenvolveu no mesmo ritmo. A taxa de fecundidade passou de 6,16 filhos por mulher em 1940 para 4,35 em 1980, 2,39 em 2000 e 1,7 em 2014. A atual taxa de fecundidade está, desde 2010, abaixo do nível de reposição, de 2,1 filhos por mulher. Se for mantido esse ritmo de queda, o país terá aumento da população até 2030, quando a tendência será de estabilização e, por volta de 2040, o número absoluto de brasileiros poderá diminuir. Em 2070, a estimativa é que a proporção de idosos brasileiros esteja acima de 35%, superior ao indicador dos países ricos.

 

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