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Flores da Cunha, do vinho e também da cerveja

Empreendedores demonstram há décadas que têm vocação para a produção de bebidas. Cervejaria artesanal foi criada em Santa Bárbara

Terra do Galo e Maior Produtora de Vinhos do País. Flores da Cunha é lembrada por suas vinícolas e vinhedos espalhados pelo interior, mas os vinhos são apenas uma das bebidas produzidas no município. De Flores saem sucos, espumantes, destilados, vermutes, aperitivos, drinques, cachaças, refrigerantes, coquetéis, energéticos e porque não, cerveja. Uma bebida popular, a cerveja ganhou status nas versões artesanal e gourmet, contando com sommelier especializado e cursos para elaboração em casa, além das confrarias masculinas e femininas de apreciadores. Foi assim que nasceu a cervejaria RoosteR Bier, pioneira no município com a fabricação artesanal.

A brincadeira de amigos tornou-se um negócio. Há quatro anos os florenses Mauren Bassanesi e Elias Fiorese começaram a estudar e conhecer o ramo cervejeiro. Após fechar as portas da vinícola da família, Bassanesi iniciou a distribuição de cervejas importadas e o gosto pelo setor foi crescendo. Os amigos formaram-se em mestres cervejeiros e começaram a buscar uma receita para a própria cerveja caseira. Há três meses o produto está sendo comercializado em Flores da Cunha e região. “Fomos tomando gosto e foi então que o Wagner Uliana também entrou como sócio. Assim decidimos expandir e investir no ramo. Eu já conhecia o processo, tinha contatos e fomos ‘montando’ a nossa cerveja”, conta Bassanesi.

A receita foi resultado de muitos testes e hoje a RoosteR conta com cinco receitas, mas por enquanto comercializa apenas a Pilsen. O produto ainda não foi engarrafado, esse será o próximo passo do negócio. “Para restaurantes vendemos em um recipiente de porcelana com capacidade para dois litros. Para o público disponibilizamos os barris. Com as garrafas queremos atingir os mercados. Esse será nosso próximo investimento, assim como aumentar a fábrica e a produção e instalar uma câmara fria”, planeja Bassanesi.

Atualmente, a cervejaria conta com uma produção mensal de mil litros. Segundo o cervejeiro, as bebidas artesanais fazem parte de um mercado novo e em crescimento acelerado. “Estou há quase cinco anos neste meio e o crescimento é anual. O ritmo agora é beber menos, mas beber melhor. Os consumidores estão deixando de lado aquela cerveja lavada, de alta produção, para dar espaço ao produto de qualidade”, destaca o empresário. A RoosteR Bier é considerada a pioneira e única no município (mais informações no site www.roosterbier.com.br). Tem alvará e licenças necessárias para a fabricação, com equipamentos feitos sob medida em Bento Gonçalves. O investimento inicial foi superior a R$ 120 mil. “O material se paga se o trabalho for feito com qualidade e conhecimento”, acrescenta Bassanesi. A cervejaria fica na comunidade de Santa Bárbara.

Produção e marca
A RoosteR é feita por um processo chamado brasagem, técnica aplicada antes da fermentação da cerveja, onde acontece a moagem do malte, mostura, filtração/clarificação e, por último, a fermentação e maturação. Cada receita tem um tempo e uma temperatura, podendo chegar a seis horas de processo, além de 15 dias para fermentação.

Bassanesi explica que a receita segue a famosa Lei de Pureza da Cerveja, criada na Alemanha, que leva água pura, malte (responsável pelo ‘corpo’), lúpulo (conservante natural e também responsável pelo aroma ou amargor e a espuma) e fermento (que transforma o açúcar vindo do malte em álcool, e também ajuda no aroma). “Utilizamos dois maltes, um brasileiro e um alemão. Depois que o consumidor passa a provar o produto artesanal é difícil voltar para a cerveja normal, por isso esse mercado cresce tanto. A qualidade e aroma em boca são totalmente distintos”, valoriza Bassanesi.



O nome
O nome RoosteR Bier foi escolhido para homenagear Flores da Cunha. Rooster significa galo em inglês. “Fizemos uma pesquisa para a escolha do nome. Ainda estamos adequando nossa marca, mas o nome está definido e é uma forma de lembrar nossa cidade”, conta Bassanesi. O desenho do galo, que ilustra a marca, teve a primeira divulgação entre amigos e por redes sociais. “Nossa capacidade mensal foi vendida desde o início. Por estarmos em meses frios a venda foi muito boa e acredito que no verão será ainda melhor. A cerveja tem concorrência, mas o mercado também é grande. Tem trabalho para todo mundo”, acrescenta o cervejeiro.

Empreendimento para retomar a tradição da família Kunz no setor
A cerveja RoosteR tem uma característica em comum com a trajetória de Flores da Cunha e das bebidas. Traz como marca o galo que foi símbolo de uma das famílias que escreveu sua história no setor do município: a família Kunz. Com seis gerações envolvidas, os Kunz escolheram Flores da Cunha para deixar seu legado maior. Assim conta um dos representantes da sexta geração da família, que seguiu no ramo de bebidas, o profissional em marketing Júlio César Kunz. “Vou repetir algumas palavras do meu avó Eloy Kunz. Ele costumava dizer que Flores da Cunha tinha uma geografia mágica e muito especial que de alguma maneira influenciava na alegria do povo. Onde tem vinho tem alegria e por isso Flores da Cunha tem essa vocação para bebidas. Na verdade as bebidas não servem para matar a sede ou alimentar, mas para ajudar nos nossos momentos de alegria. Estar com as pessoas que gostamos e nos divertir. São as pessoas de Flores que fazem essa vocação se perpetuar”, garante Júlio.

Foi a descendência alemã da família Kunz que trouxe para o Brasil o gosto por fabricar no porão de casa algumas bebidas de modo artesanal, com qualidade, como as premium. São mais de 150 anos de envolvimento, desde a chegada do imigrante Joses Kunz ao Rio Grande do Sul, até o desenvolvimento que fez de Flores da Cunha um município de muitas bebidas e com orgulho de ser a Terra do Galo.

Joses tinha como profissão a tanoaria, ou seja, fabricava barris de madeira. “Acreditamos que por ter os barris ele teria começado a produzir bebidas. Não temos o registro exato se isso começou aqui ou ainda na Alemanha”, conta Júlio. A produção em Novo Hamburgo, onde residiam, iniciou com o imigrante e teve seu processo industrializado com o filho Nicolau Júlio Kunz. A produção era exclusiva para destilados – o primeiro produto foi o rum, depois vieram os licores e outras bebidas quentes. Na época algumas foram exportadas, chegando as 100 mil garrafas por ano. “Hoje o Brasil representa pouco mais de 1% do comércio internacional, imagine nesta época onde a economia era mais fechada. Foi realmente um grande passo”, relembra Júlio.

Filho de Nicolau, Emílio Kunz foi um dos primeiros enólogos da região. Por problemas de saúde mudou-se para Gramado e na Região das Hortênsias ele também seguiu os passos da família. Na década de 1930 fundou a vinícola Petronius. O vinho era um novo segmento e a empresa ficou conhecida por ser uma das primeiras no Brasil a dedicar-se exclusivamente aos vinhos finos. Embora o setor fosse uma novidade, Emílio não deixou de produzir os destilados já tradicionais na família. Seu filho, Eloy Kunz, foi a quarta geração.


Cerveja é o novo passo (Foto: Gilmar Gomes/Divulgação)

Cerveja é o novo passo
Neste ano Júlio, o irmão Augusto e o pai, Emílio Kunz Neto, uniram conhecimentos e inauguraram a Petronius Cervejaria e Destilaria. “O nome foi uma maneira de retomar a tradição da família e fazer isso que é uma paixão do meu pai, o produzir em casa e ter essas referências da família”, acrescenta Júlio. Augusto, embora de pouca idade (17 anos), fez um curso técnico em cervejeiro e começou o trabalho. Segundo Júlio, a ideia é começar com as cervejas e depois acrescentar os destilados. “O objetivo é trabalhar somente com cervejas e destilados diferenciados, retomando o conceito da história da família e as marcas que já foram consagradas nessa trajetória. Sempre com produtos premium”, valoriza. A primeira cerveja deve ser lançada em Caxias do Sul em novembro e os destilados contarão com receitas antigas resgatadas de um livro de Eloy Kunz.

Neste ano Júlio, o irmão Augusto e o pai, Emílio Kunz Neto, uniram conhecimentos e inauguraram a Petronius Cervejaria e Destilaria. “O nome foi uma maneira de retomar a tradição da família e fazer isso que é uma paixão do meu pai, o produzir em casa e ter essas referências da família”, acrescenta Júlio. Augusto, embora de pouca idade (17 anos), fez um curso técnico em cervejeiro e começou o trabalho. Segundo Júlio, a ideia é começar com as cervejas e depois acrescentar os destilados. “O objetivo é trabalhar somente com cervejas e destilados diferenciados, retomando o conceito da história da família e as marcas que já foram consagradas nessa trajetória. Sempre com produtos premium”, valoriza. A primeira cerveja deve ser lançada em Caxias do Sul em novembro e os destilados contarão com receitas antigas resgatadas de um livro de Eloy Kunz. 

Júlio e o irmão Augusto representam a sexta geração de uma família dedicada ao setor de bebida. “Comecei na Fante desenvolvendo o trabalho de início das exportações. Após meu mestrado que envolve o setor vitivinícola, segui o caminho com consultoria para diversas vinícolas. Hoje nos juntamos com um projeto em comum”, acrescenta Júlio.

Divulgação e desenvolvimento
Se hoje Flores da Cunha é conhecida como a Terra do Galo, certamente um dos responsáveis por isso foi o avô de Júlio Kunz, o empreendedor Eloy Kunz. Ele seguiu os passos da família e se dedicou ao setor das bebidas. Após trabalhar e adquirir experiência na área, Eloy uniu forças à família Fante e juntos iniciaram uma diversificada produção. Mesmo com a separação e a fundação da E. Kunz e Cia Ltda, o objetivo sempre foi de desenvolver o setor. “Meu avô tinha uma habilidade muito grande em motivar as pessoas para se juntarem em torno de uma ideia em comum. Apesar de levar o nome dele, a empresa florense contava com uma companhia limitada bem grande, com muitos sócios”, destaca Júlio.

A partir de então a ligação da família com Flores da Cunha se fez de forma permanente. Durante muito tempo a cidade e seus moradores sofreram com o estigma gerado por outras cidades a partir da história do galo. Eloy teve o envolvimento direto com a identificação do município como a Terra do Galo quando, na metade da década de 1960, teve uma audaciosa estratégia: transformar, a partir de produtos comerciais produzidos pela E. Kunz e Cia Ltda, que utilizavam o galo como marketing, o estigma que o município carregava (com informações do livro Do Galo da Vergonha ao Galo da Prosperidade, de Carla Saretta).

Os sócios Elias, Wagner e Mauren iniciaram a fabricação artesanal da RoosteR Bier, que segue a receita da Lei de Pureza da Cerveja alemã - Divulgação
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