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01/02/2021 - 18:00

Em busca de melhores preços

Sabrina Corso Carraro ajuda o marido nos parreirais da família na Capela São Roque.
Leandro Piazza iniciou a colheita da uva nesta semana e espera por preços mais justos.

Produtores de uva estão insatisfeitos com o preço mínimo tabelado pelo Governo e buscam valorização junto às indústrias

Flores da Cunha é conhecida como a maior produtora de uvas e também por ter vinhos de qualidade. Mas, este ano, o agricultor está descontente com o valor aquém proposto pelo Governo Federal pelo preço mínimo da uva, estipulado em R$ 1,10 – R$ 0,2 a mais que em 2020. 
Em novembro de 2020, quando houve o reajuste oficializado pelo Diário Oficial da União, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Flores da Cunha e Nova Pádua, Olir Schiavenin, havia se pronunciado reivindicando o valor de R$ 1,10 ao quilo. “Ele ficou bem abaixo do custo de produção. Os insumos, todos eles tiveram um aumento significativo em relação ao ano passado por causa do dólar, da pandemia, e falta de produtos. Então esse valor não é um valor justo”, declarou Schiavenin na época. Conforme ele, o custo está em torno de R$ 1,50 ao quilo, valor este apresentado ao Governo Federal pelo Sindicato em viagem a Brasília.
E é esse valor que o produtor quer nesta safra. O agricultor Leandro Piazza, 37 anos, possui cinco hectares de uva na localidade de Alfredo Chaves. Atuante desde pequeno na lavoura, hoje está desanimado com os altos custos de produzir a uva e com baixo valor pago pelo produto. Piazza, junto com outros agricultores do município, estão reivindicando preços mais justos. “Antes, o custo de produção não se elevava tanto a cada safra, então os poucos centavos a mais eram toleráveis. Mas nesses últimos anos, o preço mínimo estipulado continuou aumentando dois, três centavos, mas o custo da produção disparou”, declara Piazza que trabalha atualmente com as uvas Bordô, Isabel e Couderc preta. 
Para Piazza, a reivindicação é para que as indústrias paguem, pelo menos, o custo de produção. “De R$ 1,50 para baixo é inaceitável, porque trabalhamos o ano inteiro dependemos do tempo, o custo de produção está elevado, nem todo o ano tem safra cheia, e as vinícolas exigem qualidade do produto. Quando temos qualidade o valor que queremos não é pago. É preciso lembrar que essa qualidade gera custos”, relata. 
Em um município onde a uva é a estrela maior e que o êxodo rural tem impactado, quem fez o oposto, saiu da cidade para viver só da agricultura, está insatisfeito com a situação. É o caso da jovem Sabrina Corso Carraro, 28 anos, que atuou 10 anos no comércio local e há um está apenas vivendo da uva com o seu marido. “O agricultor tinha esperanças de um preço bem melhor, não digo um aumento absurdo, mas a mais que o ano passado, até porque a safra deste ano está bem bonita. Queríamos que o valor competisse com essa safra, porque o agricultor faz a uva vir bonita para ajudar o dono da cantina a fazer um vinho bom, então esse apoio deve ser mutuo”. 
Outro ponto abordado pelos agricultores, é que apenas na metade da safra a vinícola repassa o preço a ser pago. “É uma falta de consideração com o agricultor. Qualquer um que vende seu produto ou um serviço já sabe o valor final. Então o certo, e isso também reivindicamos, é já ter um preço estabelecido antes de começar a colheita”, diz Piazza que informa que isso já acontece a muito tempo, além de quererem um pagamento até a metade do ano. “Tem empresas que iniciamos a nova safra e ainda estão pagando a do ano passado”, finaliza. 
Sabrina é da mesma opinião. “A gente se desgosta, porque estamos entregando a uva sem saber o preço. As vinícolas deveriam se reunir e estipular um valor antes de começar a safra. Eu sempre digo, até que a gente tem uva em cima das parreiras temos armas pra lutar, no momento que a gente estiver entregando a última carga de uva perdemos a luta e vamos receber o preço que eles vão querer pagar”. 

A luta sindical

Conforme o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Flores da Cunha, Olir Schiavenin, o sindicato está intensificando, desde antes do início da safra, as tratativas junto aos órgãos competentes para que se possa obter um preço melhor da uva. “A prova disso é que nos últimos dias tivemos contatos com as vinícolas locais, AGAVI, com a coordenação da Comissão Interestadual da Uva, levei ao conhecimento da nossa federação, a FETAG, e tive contato direto, por telefone, com a ministra da Agricultura colocando mais uma vez a situação”, relata Schiavenin. Um documento já foi encaminhado para Brasília justificando a necessidade da reavaliação da decisão do Conselho Monetário Nacional em relação ao novo preço mínimo da uva. 
Olir destacou que algumas vinícolas florenses já sinalizaram um aumento no valor. “E pelo que pude perceber nas conversas, provavelmente elas não pagarão pela tabela do grau e, inclusive, algumas farão reajustes no frete”, ressalta. Schiavenin ainda reforça para que o produtor negocie bem a uva. “O preço mínimo estabelecido pelo Governo é muito baixo, então o preço de mercado a gente tem que negociar bem. O Sindicato se põe à disposição, como sempre, para receber sugestões que venham contribuir para melhorar essa situação”, finaliza.

Para saber

O preço mínimo publicado pelo Governo serve de referência para os financiamentos da produção, seguro agrícola e outras políticas públicas, não sendo obrigatório seu cumprimento por parte das indústrias. Via de regra, as uvas tintórias como a Bordô, são pagas com ágio, que varia de uma safra para outra conforme os estoques dos produtos elaborados e a quantidade de uva a ser colhida. Em 2020 a comercialização de vinhos de mesa cresceu 19%, mas a de sucos diminuiu 5%. São fatores que impactam diretamente nas relações econômicas entre vinícolas (compradores) e produtores (fornecedores). Numa economia de livre mercado, a negociação entre as partes é regra. Mesmo não se manifestando formalmente, algumas vinícolas já abriram valores com seus fornecedores, de que para a uva Bordô, de 15º Babo, tabelada pelo governo em R$ 1,25, poderão estar pagando valores acima, entre R$ 1,35 e R$ 1,40. Para o produtor, o aumento de renda não está somente no aumento do preço, mas no crescimento de sua produtividade e qualidade, fatores variáveis, que são computados com fixos na elaboração do preço mínimo. No cálculo do custo de produção, é levado em conta 20 mil kg de uva por hectare. Quem produzir acima desta quantidade, terá seus custos diluídos e sua renda ampliada. 

Por Gabriela Fiorio - gabriela@jornaloflorense.com.br

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Sabrina Corso Carraro ajuda o marido nos parreirais da família na Capela São Roque. - Gabriela Fiorio Leandro Piazza iniciou a colheita da uva nesta semana e espera por preços mais justos.  - Gabriela Fiorio

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