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12/10/2021 - 18:00

A chama da fé

Aos 84 anos, Olga Gelain contabiliza mais de 80 nomes em seu caderno de orações a São Paulo.

Há mais de 40 anos, Olga Odila Scortegagna Gelain se dedica a ajudar o próximo com sua devoção a São Paulo

Para homenagear os idosos, ao longo do mês de outubro o Jornal O Florense está desenvolvendo uma série de matérias especiais sobre as tradições de nossos antepassados que, infelizmente, estão se perdendo com o passar dos anos e as mudanças de comportamento na sociedade atual, devido, especialmente, ao avanço das tecnologias.  Nesta primeira edição vamos contar a história de fé da florense Olga Odila Scortegagna Gelain, de 84 anos, que se dedica, há mais de quatro décadas, a curar pessoas que lhe procuram para serem abençoadas com a devoção de São Paulo.  
A moradora do Travessão Alfredo Chaves sempre teve interesse em ajudar as pessoas, mas começou a benzer somente após a morte de sua mãe, Genoveva Novello. “Antes, quando eu era mais pequena, só espiava minha mãe de joelhos na frente da capelinha, rezando. Depois eu cresci, ela ficou doente e ensinou para mim e para a minha irmã, Lídia Scortegagna, essa devoção a São Paulo”, lembra Olga.
A aposentada explica que a crença passada pela mãe chegou por aqui muito antes, juntamente com a capelinha, que veio do Vaticano trazida pelos imigrantes italianos ao chegarem ao Brasil em busca de melhores condições de vida. 
Em uma época onde o acesso aos médicos era mais restrito, ela pontua algumas situações nas quais recomendou às pessoas a ajuda de sua mãe. “Teve um dia que uma moça estava juntando trigo e uma cobra se pendurou no braço dela, ela estava indo para casa. Nessa hora, por coincidência, eu estava indo lá para levar comida e disse para ela ir até a casa da minha mãe para que ela fizesse a devoção. Ela foi, fez a reza, e no dia seguinte foi trabalhar. O veneno saiu todo pelos poros e ela melhorou”, relata. Outro caso é a história de seu cunhado, que estava juntado milho e não viu que uma cobra jararaca o teria mordido. Olga também o aconselhou a procurar sua mãe e ele sarou.
Mordidas de cobra, picadas de aranha e de outros animais venenosos, ou, até mesmo plantas, como o Bugre (aroeira-braba), são as principais motivações das orações da florense, que diz já ter atendido doentes de diversas regiões do estado. “Eu anoto o nome da pessoa em um caderninho e depois digo para ter fé com minha prece, com minha benção, que ela vai sarar”, explica e complementa dizendo que se ela não ficar curada pode ligar que faz novamente a oração.  
Por vezes, Olga acende a vela e reza junto com quem a procurou, mas também é possível cada um fazer a sua oração, individualmente, em casa. “Eu rezo de noite, de dia, a qualquer hora. Chamo pelo nome dele(a) e rezo. Também deixo a vela umas três horas acesa”. O indispensável é a fé, elemento presente nos mais de 80 nomes de seu terceiro ou quarto caderno de bênçãos. São tantos que ela afirma ter perdido a conta.   
A devota também menciona ter aprendido que não se pode cobrar por uma oração. “Eu sempre digo, para todos que vem aqui, que se eles querem dar alguma coisa podem fazer isso de boa vontade, mas eu não cobro nada. Essa é uma oração que não é cobrada, por isso é de fé”, destaca. Às vezes ela recebe velas, que usa muito para as rezas, ou, ainda, algumas frutas, mas, sempre porque as pessoas querem presenteá-la. 
Na devoção a São Paulo não são utilizadas folhas ou aliança – como é comum em outras práticas – apenas a força da fé. Crença que, inclusive, chegou a ser recomendada por profissionais da saúde. “As pessoas procuravam os médicos e não saravam, aí eles diziam para me procurar porque eu fazia a devoção. Tinha os que vinham com febre, que estavam com o corpo inteiro roxo e se curavam com a reza”. 
Seguindo as tradições, hoje, Olga ainda benze, mas, já passou seus conhecimentos adiante para sua nora, Realda Smiderle. “Também vou ensinar para a minha neta que mora em Antônio Prado, a Marina”. Mas, para seguir à risca, a devoção a São Paulo deve ser ensinada apenas no dia 25 de janeiro, que é o dia do santo. Outro ponto que merece atenção é a quantidade de pessoas que podem aprender a reza: o número não pode ultrapassar três, anualmente.
No decorrer dos anos, Olga ressalta que a procura por suas bênçãos tem baixado, não sabe dizer se isso se deve ao fato de as pessoas estarem perdendo a fé, ou, pelos avanços da medicina. De toda forma, pelo que depender dela e de sua família, a devoção a São Paulo vai permanecer viva por mais muitos anos. “Não é para parar essa devoção, é uma reza forte, de muita fé. A minha nora vai ter que passar para alguém também, e assim vai tendo sequência”, reflete. 
Continuidade que se faz mais do que necessária em meio a uma era na qual os valores de nossos antepassados vêm, pouco a pouco, se perdendo. “Eu me sinto muito bem e realizada em poder ajudar. Fico bem feliz de passar adiante essa oração, que é uma oração de fé e não dá para perder. Eu acredito nisso e dá para ver quando a gente faz a reza, porque a vela fica com a chama mais grande, é a devoção”, finaliza Olga.

 

Dia Internacional do Idoso 

Em 1991 a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o dia 1º de outubro como o Dia Internacional do Idoso. A data tem o objetivo de sensibilizar a sociedade para as questões do envelhecimento, dando ênfase à necessidade de proteção e cuidados para com essa população.
Para comemorar, a prefeitura municipal de Flores da Cunha e o Conselho Municipal do Idoso já desenvolveram algumas atividades, dentre elas a sessão Vereador por um dia para a Melhor Idade, ocorrida nesta quinta-feira, dia 7, na Câmara de Vereadores. 
Nas próximas semanas outras ações estão previstas, em sua maioria online, confira: 


13 de outubro: vídeo da Emater, com a nutricionista Leila Ghizzoni, sobre dicas de envelhecimento saudável, com foco na alimentação

20 de outubro: palestra em vídeo com o professor Jásser Panizzon, sob a temática “Qual é a melhor idade?” 
     Às 18h: Missa especial do Mês do Idoso na Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes, também haverá transmissão online

27 de outubro: encerramento da programação, com vídeo do Conselho Municipal do Idoso. 

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Aos 84 anos, Olga Gelain contabiliza mais de 80 nomes em seu caderno de orações a São Paulo.  - Karine Bergozza

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