Maria de Lurdes Rech

Maria de Lurdes Rech

Cotidiano

Professora, pós-graduada em Métodos e Técnicas de Ensino pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), Maria de Lurdes Rech é autora do livro de crônicas Prosa de Mulher e do CD de crônicas e poemas Amor Maior, vencedora de diversos concursos literários em nível nacional. Membro da Academia Caxiense de Letras. Foi produtora e apresentadora do programa cultural Sábado Livre da rádio Flores FM de 2004 a 2012. Colunista do jornal O Florense desde 2007. Atuou na Secretaria de Educação, Cultura e Desporto de Flores da Cunha, onde coordenou a implantação dos Centros Ocupacionais da cidade. Exerceu a função de diretora e vice-diretora de escolas. Atualmente, realiza o trabalho de pesquisadora no Museu e Arquivo Histórico Pedro Rossi com o projeto Vozes do Tempo.

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Vozes do Tempo - parte VI

No início da colonização, os imigrantes plantavam o linho e teciam com la molinela, depois o tingiam com cascas de cedro, antes de confeccionar sacos e lençóis.

Por meio das histórias coletadas no projeto Vozes do Tempo, cujos documentos, autorizações para uso de publicações, declarações, fotos, depoimentos e registros devidamente comprovados e arquivados de acordo com normas vigentes e a organização do Arquivo e Museu Histórico Pedro Rossi, proporcionamos viagens ao passado para os apreciadores mais saudosistas.
Otto Bélgio Trindade, último prefeito nomeado pelo governador, construiu a prefeitura onde hoje funciona o Museu e Arquivo Histórico Pedro Rossi e fundou a primeira Biblioteca Pública organizada por Ilka Fontana no mesmo prédio. Otto voltou a Porto Alegre em 1947, após derrota nas eleições para prefeito, indo trabalhar no Cartório Trindade. Foi casado com a professora Hebe Trindade e teve três filhos, Jean Paul, nascido na França em 1939; Hélgio Filho e Teresa. Hélgio, alfabetizado na Escola São José desta cidade, tornou-se cientista político e assumiu a função de reitor na UFRGS em 1992.
No início da colonização, os imigrantes plantavam o linho e teciam com la molinela, depois o tingiam com cascas de cedro, antes de confeccionar sacos e lençóis. Os botões eram feitos com tecido amontoado e envoltos em linho. Lúcia Dallemole convidava o neto Hermenegildo, hoje com 78 anos, para fiar em sua companhia. Entre uma e outra cheirada de rapé, que la portea nella tabaquina, a nonna tirava do bolso do avental algumas balas para agradar o neto que ela chamava, dizendo: “Petchenin, negreto, viem quá, com la nonna, que te guadanhi i dolcetti”.
Angelo Faccio, com sua carreta de aluguel, transportava pessoas, animais, produtos, mudanças. Na segunda-feira, recolhia muitos quilos de cascas de banana, pois os moradores do interior tinham o hábito de consumir a fruta e tomar um trago, junto ao Armazém Florense de Máximo Zamboni e Ari Nary Gelatti, logo após a celebração da missa, aos domingos. As cascas serviam para alimentar os porcos do conhecido carreteiro.
Nos anos 1940, João e Lourenço, com 14 anos de idade, começaram a trabalhar na Granja União. Desempenhavam a função de botchas, carregando os carotes, pequenos barris de madeira com água da fonte para saciar a sede dos que trabalhavam nos parreirais. No início dos anos 1950, Margherita não podia conceber o terceiro filho. Ao engravidar, recebeu ordem médica para abortar. Ao consultar o padre, o mesmo lhe disse: “Antes mãe mártir que mãe assassina. Aos 26 anos, diante dos filhos, sentados no cadeirote de madeira, ela desfalece e parte, sem antes deixar escorrer duas lágrimas pela face”.
Em 1950, Cláudio Sandi ordenhava as mais de 30 vacas leiteiras na Granja União, que empregava cerca de 60 funcionários sob o comando de Lino D’Andréa e sócios. Lá conheceu a esposa Terezinha, que ia buscar leite. Conviveram por 70 anos tendo sete filhos e muitos netos.
Um dos primeiros prefeitos eleitos, acompanhado por José Curra, o Lobo, chegou com o seu capote de lã à Capital do Estado para uma importante reunião. Lá, tiveram que comprar roupas mais leves devido à elevada temperatura. Ao chegar no automóvel de cor preta para a troca de roupa, o prefeito e o assessor perceberam que compraram um pijama listrado. Vestido assim, não poderia comparecer ao evento. Lobo, excelente orador, apesar de não ter estudado, apresentou-se como autoridade, recebendo honrarias e orientações administrativas. Voltou satisfeito e vaidoso a Flores da Cunha por ter sido ‘prefeito por um dia’, embora na função de motorista oficial.
Certa manhã, a esposa de um conhecido morador foi tirar o leite da vaca para alimentar os três filhos pequenos, porém, não a encontrou no curral, onde costumava fazer a ordenha. Ao retornar, perguntou ao marido, que ainda estava em seu leito, se conhecia o paradeiro do animal. Com a maior cara de pau, respondeu: “Vendi a malhada e me esqueci de te avisar”. Desolada, Pina virou as costas e foi chorar mágoas na casa da vizinha, após tomar o amargo café preto com o pão que lhe arranhara a garganta.
E assim, entre um fato e outro, relatamos histórias que fizeram parte do cotidiano dos moradores desta cidade e seus arredores.