Vindima começa mais cedo em 2018

Por Camila Baggio – Camila@jornaloflorense.com.br | 11 de Janeiro de 2018 às 09:16

Safra da uva em Flores da Cunha e outros municípios da Serra começa a ser colhida com pelo menos 15 dias de antecipação. Estoque de vinhos excedente preocupa vitivinicultores

A antecipação da maturação vem sendo, por enquanto, o diferencial da colheita da uva 2017-2018. Em Flores da Cunha, assim como o panorama do Estado, a previsão é que os trabalhos da safra se iniciem pelo menos 15 dias antes em relação há outros anos. E se na próxima segunda-feira muitos viticultores iniciam o período de trabalho mais intenso do ano, para outros que vendem para consumo in natura a colheita dos primeiros cachos começou ainda antes do Natal. E se tudo está adiantado, o setor estima também alguns dados como a qualidade, que se mostra elevada; e a quantidade, que deve ficar abaixo do último ano – detentor de uma safra histórica em questão de volume.

O coordenador da Comissão Interestadual da Uva e vice-presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Marcio Ferrari, adianta que o Rio Grande do Sul deve colher cerca de 550 milhões de quilos de uva, não atingindo o resultado de 2017, quando 753 milhões de quilos da fruta foram colhidos em uma supersafra gaúcha. “Acreditamos em uma colheita de boa qualidade, pois há previsão de La Niña a partir de janeiro. Em termos de volume, será normal”, antecipa Ferrari. Em Flores da Cunha e Nova Pádua o panorama é o mesmo.

Para Olir Schiavenin, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR), a antecipação da maturação também é uma realidade por aqui. “Para a elaboração de vinhos e sucos a safra começa nos próximos dias, bem antes de anos normais. A qualidade das uvas vem se destacando, com um grau de sanidade muito bom. Por enquanto o clima está colaborando e os produtores mantêm as práticas e tratamentos em dia”, adianta. Quanto à quantidade, Schiavenin prevê, de acordo com informações coletadas junto aos produtores, que Flores da Cunha deve ter uma safra de 20% a 30% menor do que a do último ano – em 2017 foram colhidas 110 mil toneladas da fruta, um recorde que corresponde a 14,6% da produção do Estado.

A engenheira agrônoma da Emater-RS/Ascar de Flores da Cunha, Clarissa de Quadros, confirma que a antecipação foi observada principalmente em propriedades de áreas específicas. “Temos registros de vinhedos próximos ao Rio das Antas, onde o microclima é diferenciado, e que foram colhidas uvas antes do Natal”, conta. De acordo com ela, a última vez em que houve expressiva antecipação na maturação das uvas foi na safra 2012-2013, condicionada pelos efeitos severos de estiagem daquele ano.

 

Estoque de vinhos é excedente

Uma das principais preocupações do setor é referente aos estoques de vinhos, resultado da safra histórica de 2017 que serviu para a elaboração de 485,4 milhões de litros de vinhos e outros derivados da uva. Para o diretor executivo da Associação Gaúcha de Vinicultores (Agavi), Darci Dani, as vendas em 2017 não foram tão positivas, resultando em um estoque excedente que permanece dentro das vinícolas. “O suco teve um crescimento nas vendas, o vinho fino caiu e o de mesa ficou estável. Viemos de um ano ruim e, infelizmente, vendas baixas. Acredita-se que, em relação a 2015, perdemos aproximadamente 20% de comercialização em 2016, o que se repetiu em 2017. A última safra foi acima da média e isso resultou em estoques maiores, o que pode trazer problemas para algumas empresas agora que inicia uma nova colheita e falta espaço dentro da vinícola”, avalia Dani.

Como os dados de dezembro passado ainda não foram concluídos, o diretor enfatiza que em novembro o estoque de vinho gaúcho estava na faixa de 270 milhões de litros (levando em conta vinhos, sucos, mostos, etc.). O estoque de passagem, que normalmente mantém o setor, é de 150 milhões de litros. “São 100 milhões de litros a mais. É claro que ainda faltam as vendas de dezembro, mas ainda assim existe um estoque excedente”, conclui Dani. A solução, de acordo com o diretor, está no aumento do consumo. “Durante a safra certamente a situação vai se acomodando e o mercado vai absorvendo o volume produzido. Contudo, no final deste período, teremos sem dúvida tanques e pipas cheias. O trabalho é aumentar o consumo e vender mais, porque se continuarmos produzindo uvas nesse ritmo sem o aumento nas vendas o setor irá sofrer”, avalia Dani.

O presidente da Federação das Cooperativas Vinícolas do Estado (Fecovinho) e do Ibravin, Oscar Ló, avalia o último ano diferente. “Em 2017 a comercialização foi boa e estamos tendo um crescimento nos volumes se compararmos com 2016, com isso não deveremos ter problemas com relação a estoques. O segundo semestre do ano passado foi melhor que o primeiro, mas, no geral, estamos terminando o ano com crescimento nas vendas. Se a economia do país melhorar a partir de 2018, certamente o setor vitivinícola terá condições de retomar seu crescimento que era constante até 2015”, avalia o presidente.

A partir do dia 1º de janeiro passa a vigorar o atual preço mínimo da uva, mantido pelo governo federal em R$ 0,92/kg. Em dezembro de 2016 o valor teve um aumento de 18%, contudo, neste ano foi mantido apesar dos esforços do setor que apresentou um custo de produção de R$ 1,30 ao quilo. A definição, publicada no dia 8 de dezembro no Diário Oficial da União pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), estabelece o valor a ser pago pelo quilo da uva Isabel a 15 graus Babo (variedade de referência).

As primeiras uvas

O produtor Ricardo Bordin, 50 anos, assim como a maioria dos agricultores florenses, inicia a vindima da família na próxima semana. A variedade BRS Violeta será a primeira a ser colhida nos vinhedos localizados na Linha 40, no Travessão Alfredo Chaves, próximos ao Rio das Antas, fazendo limite com Antônio Prado e Nova Pádua. Nesta semana, Bordin preparou equipamentos e contatou mão de obra, tudo para a safra, que inicia antes neste ano, ser tranquila. “Em relação ao ano passado o trabalho está de fato 15 dias adiantado. Achei que essa diferença seria até maior, mas o clima esfriou um pouco, o que segurou a maturação. A qualidade está excelente, é claro que o grau Babo e outros fatores serão identificados com o início da colheita, mas no aspecto visual podemos adiantar uma bela safra”, valoriza Bordin, que trabalha com 8 hectares de vinhedos nas variedades Seibel, Carmen, Isabel, Isabel Precoce e Bordô.

Neste ano a família projeta colher cerca de 240 mil quilos de uvas, uma média de 30 mil quilos por hectare. “Diferentemente do ano passado, onde produzimos uma média de 36 mil quilos de uva por hectare, neste ano a quantidade é menor, mas a qualidade vem se mostrando superior, com menos doenças fúngicas. O que precisamos agora é de bastante sol e calor para a fase final de maturação”, adianta o produtor. Há cinco anos ele trabalha com a Violeta, uma cultivar lançada pela Embrapa e que é a mais precoce. “Os primeiros grãos começaram a ganhar cor em novembro do ano passado. São praticamente 70 dias até a colheita”, conta o produtor.

Toda a uva colhida por Bordin, o pai Jacinto Bordin Neto e o irmão Márcio André Bordin segue para vinificação na cantina da família. Os vinhos de mesa são vendidos para Estados como São Paulo e Rio de Janeiro. A preocupação com os estoques de vinho da última safra também chega às pipas da família. “Sabemos que na última colheita tivemos uma produção bastante grande e que também o ano de 2017 não foi positivo economicamente. Temos um governo que não oferece estabilidade ou segurança, e o consumo do vinho, que não é um item de primeira utilidade, é afetado. Por enquanto vendemos cerca de 40% da nossa última safra, mas acredito que neste ano as coisas vão melhorar”, aposta Bordin.

 

Recebimento desde dezembro

A Cooperativa Agroindustrial Nova Aliança recebe as primeiras uvas desde o final de dezembro. Associados de Nova Pádua, Bento Gonçalves, Cotiporã, Farroupilha e Caxias do Sul estão entregando as frutas na filial São Pedro, no bairro São Cristóvão, em Flores da Cunha. A matriz, localizada na Lagoa Bela, abre sua estrutura na metade da próxima semana e tem a expectativa de receber 35 milhões de quilos de uva – 20% menos do que na safra passada quando 43,5 milhões de quilos foram processados.

O vice-presidente da Nova Aliança, Gilberto Verdi, adianta que dos 300 mil quilos já recebidos até agora, a qualidade vem sendo um importante diferencial. “A Cooperativa está desenvolvendo uma política de melhora da matéria-prima, e percebemos que um dos fatores determinantes é o clima, aliado ao bom trabalho do produtor. Neste início de safra, o que nos surpreendeu positivamente foi a questão da qualidade. Graus difíceis de serem vistos em início de colheita, como a Bordô com 14 e 15 graus, demonstrando uma excelente qualidade. Se continuarmos assim será um ano de excelentes produtos e, neste momento, para o setor como um todo, a uva melhorando a qualidade em vez da quantidade é o ideal”, complementa Verdi.

 

Antecipação também em outras culturas

A agricultura diversificada de Nova Pádua possibilita que sejam identificadas outras culturas que amadureceram antes neste ano. De acordo com o engenheiro agrônomo do escritório da Emater local, Willian Heintze, praticamente todas as culturas foram antecipadas. “Neste momento, para se ter uma ideia, os pessegueiros da cultivar Eragil, uma das mais tardias, estão quase todos colhidos. Em muitas propriedades está sendo realizada a colheita de uvas das variedades Niágara, e a previsão é de iniciar a colheita da Bordô semana que vem, o que representa um adiantamento de 15 a 20 dias em relação a outros anos”, confirma Heintze.

O agrônomo complementa que as videiras estão com bom desenvolvimento e quantidades mais próximas à realidade de safras normais, diferente da grande produção da última colheita. “A Bordô, segunda mais cultivada no município, está com produtividade esperada normal e qualidade muito boa. O aroma de uvas amadurecendo perfuma Nova Pádua há cerca de uma semana”, frisa.

De acordo com o Informativo Conjuntural da Regional da Emater de Caxias do Sul, elaborado pelo agrônomo Enio Todeschini, o período está favorável para o desenvolvimento, maturação e manutenção da sanidade das plantas e das frutas. “As condições climáticas com precipitações espaçadas, presença de vento, dias com bastante insolação e temperaturas médias para a época configuraram o panorama propício para a viticultura. Alguns videirais localizados em solo raso vinham evidenciando sinais de déficit hídrico, porém, as últimas chuvas recuperaram as plantas”, explica Todeschini. Atualmente, os produtores fazem tratamentos preventivos à ocorrência de mufa/míldio, com calda bordalesa e às podridões de cacho com fungicidas específicos.

 

Orientações

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Flores da Cunha e Nova Pádua divulga alguns procedimentos indicados para a safra. Confira:

– A uva transportada para fins industriais, dentro da zona de produção, deverá ser acondicionada em caixas plásticas de 20kg ou em lonas atóxicas.

– Durante o transporte será obrigatório o uso de coberturas atóxicas para proteção da uva.

– Toda a carga de uva deverá ser acompanhada de nota fiscal do Talão de Produtor.

– A determinação do grau glucométrico deverá ser feita no prazo máximo de três horas após a chegada da carga.

– Toda indústria vinícola fará constar na nota o número atualizado do Cadastro Vitícola.

– Cuidado com a legalização da contratação da mão de obra.

– Em caso de dúvidas, o viticultor deve entrar em contato com o STR pelo telefone 3292.7500.

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